Uma etiqueta escrita: com amor, mamãe

“É impossível continuar com uma dor tão grande”, e com essa frase a psicóloga Renata Duailibi sintetiza o que é estar enlutado e coloca em aberto as possibilidades para o que fazer disso tudo que estamos sentindo. Existe uma direção que podemos pegar? Eu acredito que sim, mas essa estrada não é uma linha reta e  não existe atalhos nela. Estamos caminhando, o mais importante é isso. Quando andamos em uma trilha para chegar em uma cachoeira ou naquele lugar bonito que nos espera lidamos com vários “obstáculos” e contamos com algumas ajudas. O sol é muito quente e precisamos tomar água para hidratar e andamos. Logo depois uma fileira de arvores enormes que nos entregam suas sombras e descansamos. E assim, continuamos até chegar no lugar que queremos.

Nesse caminhar eu descobri muitas coisas e talvez a mais importante delas venha desse sentimento, é impossível continuar com uma dor tão grande e embora eu não consiga me desvencilhar dela, jogá-la pra longe ou fingir que ela não está ali  eu posso ao menos fazer algo nesse momento que a utilize -como ferramenta, função e forma – talvez a dor possa ser um diamante que não foi lapidado, um metal cru que não foi forjado. E a alquimia dessa coisa cheia de camadas – que damos o nome de dor – mora entre o calor de nossas mãos e a necessidade, a nossa própria ou de nós todos. Assim, nessa urgência do impacto aqui dentro: fazer algo dentro do luto, algo intimamente criativo, algo que tivesse um método e uma intuição, que eu pudesse pensar e sentir ao mesmo tempo e que causasse dentro de mim esse estrondo muito próximo do que gostamos de chamar de transformação, nessa urgência toda do caos querendo ser pluma criamos o projeto do Segundo Sol.  A forja da dor em amor, da dor em arte. Da dor como um martelo, um esmeril, que ficasse ali, batendo, retorcendo, alinhavando o processo do meu próprio luto.

E a medida que íamos criando algo aqui dentro começava a existir, uma pedra que vira rubi, um coração costurado pela linha do amor e da palavra. Imergir significa adentrar tão profundamente e se reconhecer ali dentro, imergir nas histórias das mulheres que como eu tinham  um coração partido, essas histórias aos meus olhos não pareciam tristes, cada história parecia uma coisa particular e muito bonita. A história da Dani por exemplo é um passarinho dizendo até breve, a história da Raquel é um coração bem guardado dentro de uma caixinha com uma chave, a história da Lilian são vários corações pequenininhos como brotos de um dente de leão dentro de um vaso com a etiqueta: esperança. A história da Kellen é uma estrela rasteira que aponta para o alto e dispara. O que quero dizer é que essas histórias povoaram meu coração com essas imagens todas, coloridas e ásperas, as vezes aquareladas ou salgadas igual uma lágrima – mas uma lágrima que era um colo – porque dentro das lágrimas delas eu também pude chorar a minha própria. Essas histórias sabiam que mudariam a mim em primeiro lugar, e se mudou a mim porque eu sentia nelas a minha própria então também mudaria a sua história e a história de alguém próxima ou alguém distante.

E a gente caminhou. Não entrei na trilha sozinha, eu tive no caminho a sombra dessas árvores; O Segundo Sol não teria sido imaginado se não fosse eu junto com o Fabrício, se não fosse também Cecília, a minha filha mais velha e se não fosse a Renata, nossa terapeuta. Se não fossem todas as mulheres ao meu redor me contando as suas histórias e para aquém das histórias com seus filhos, as histórias do entorno: de negligência emocional, de expectativas frustradas e da invisibilidade do luto. Um amontoado de histórias que se repetiam tantas vezes na tentativa de me mostrar que eu não era a única a passar pela indiferença social. E que eu era a exceção nos casos de violência obstétrica ou descaso no atendimento frente a perda gestacional/neonatal. Então assim, na tentativa de ter o luto reconhecido sim mas principalmente de eu me reconhecer no luto o Segundo Sol foi criado.

O que posso dizer depois de tudo isso é que aja o que houver dentro do luto, crie algo. Não precisa ser grandioso mas crie por você, podem ser tantas coisas que estão no mundo latentes esperando para existir. Pode ser um jardim, pode ser uma técnica incrível para criar um vaso de flor ou até uma manta de tricô. Pode ser pra você mesma e pode ser para outra pessoa. E aquilo criado habitará dentro dele o seu coração. Com uma etiqueta do lado, bordada de lágrima transformada em ouro escrita: com amor, mamãe.

Rafaella Biasi

Co-criadora do documentário e projeto O Segundo Sol.

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