O recomeço

A psicoterapia ajudou muito. As sessões semanais me faziam entender que por mais que queiramos, não temos controle sobre tudo. Me fez aprender a olhar para o outro lado das coisas. Não eram só coisas ruins que estavam a acontecer. Por mais estranho que possa parecer para algumas pessoas, muita coisa boa veio junto com a perda.

Os dias que seguiram foram da total incompreensão à aceitação. Aceitei que teria que fazer uma nova curetagem. Aceitei que eu iria ter que esperar mais um tempo para poder ter um filho nos braços. Aceitei o que tinha acontecido como uma forma de amadurecimento pessoal. Compreendi que cada coisa tem seu tempo. E que embora meu filho tenha vindo e não tenha ficado, isso não faz de mim uma pessoa ruim, ou menos digna de ser mãe. Pelo contrário, esse filho veio para me mostrar como o amor de mãe é incondicional. A dor não passa, e eu sei que ela nunca vai passar, ela está ali, no cantinho dela. A gente se obriga a aprender a conviver com ela, e cada dia fica mais fácil. Cada vez que contamos para alguém nossa história fica mais fácil de falar. E precisamos fazer isso, por nós e pelos nossos filhos que não ficaram, em memória a eles e ao amor que sentimos mesmo eles não estando aqui conosco.

Uma amiga passou um tempão me dizendo que eu precisava ressignificar a minha perda. E eu confesso que demorei para entender como fazer isso. Então, um outro amigo artista, me disse: “Paola saiu o edital das linguagens* e eu acho que você deveria escrever um projeto. Naquele momento eu entendi de que maneira eu iria ressignificar a minha perda. Resolvi que era o momento de dar voz a minha dor e ao meu amor. Resolvi que gritaria ao mundo a minha história e quem sabe, através dela, ajudaria outras mulheres e outras famílias a passarem por suas perdas.

Com a ajuda de muita gente eu consegui escrever o projeto que se trata da montagem de um espetáculo solo de dança intitulado “Dessas Interrupções”. A ideia do espetáculo é expressar através da dança momentos da gravidez, o dom de gerar vida e as múltiplas conotações acerca do aborto espontâneo. O debate diante do tema aborto é amplo, pois é um assunto cercado de questões de cunho ético, moral, cultural e religioso, que geralmente se sobressaem à discussão sobre o papel da mulher em meio a todo esse panorama, o turbilhão de sentimentos que cada gestante sente de maneira única ao confirmar que está grávida e posteriormente, a notícia de um aborto.

Falar sobre a perda de um bebê ainda é um tabu cultural na nossa sociedade. Ninguém quer falar sobre isso, mas ao mesmo tempo, as mulheres que passam por tal situação precisam saber que não são as únicas com essa dor e principalmente, que não estão sozinhas. As pessoas não compreendem porque choramos por um bebê que não nasceu. O silêncio que permeia o tópico causa muita dor psicológica para a mulher, porque não podemos sofrer de forma aberta e própria.

Por isso, nos sentimos completamente à margem do processo de luto.

Quem passa por isso, sente e vive as inúmeras emoções e sensações desse momento difícil, mas que traz consigo a oportunidade de evolução, de instruir-se. Eu pretendo compartilhar não só a minha experiência, como a de tantas outras mulheres, expressando na arte da dança, os múltiplos sentidos que envolvem o momento de concepção da vida e o aborto espontâneo.

Eu convido vocês a acompanharem através dessa coluna aqui no blog Do Luto à Luta todo o processo de pesquisa e produção do espetáculo. Estarei relatando mensalmente o andamento do trabalho, as facilidades e dificuldades, as entrevistas com outras mulheres e profissionais engajados na nossa causa, as discussões com meu diretor e o desenrolar da concepção coreográfica. Trarei além dos relatos escritos, fotos e vídeos para que vocês possam se sentir mais próximos e também para que possam dar suas contribuições a fim de um resultado final que possa realmente contribuir com nossa causa!

Até breve, Paola Zonta.

*Nota: A Prefeitura Municipal de Chapecó através da Secretaria de Cultura, do Fundo Municipal de Cultura e do Conselho Municipal de Política Cultural dispõe de concurso público denominado Edital das Linguagens, que é um edital municipal de fomento e circulação das linguagens artísticas do município. O projeto Montagem do espetáculo solo de dança “Dessas Interrupções” foi contemplado no Edital das Linguagens 2015 para execução no ano de 2016.

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Um comentário em “O recomeço

  1. Sinto muito por sua perda, mas acredito que muitos viverão um despertar de sentimentos por conta da sua iniciativa em traduzir as emoções vividas em.uma gestação interrompida. Desejo a você todo sucesso nesse projeto. Forte abraço!!! Juntos somos mais fortes!!!

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