A união faz a força

Foi tudo muito rápido. Eu moro nos EUA e estava indo ao Brasil passar uma temporada com meus pais. Além de ficar com eles, a ideia era ir ao casamento de uma grande amiga, rever pessoas que amo, fazer um checkup com médico e até mudar meu método contraceptivo (queria colocar DIU, mas tinha que ser com a minha ginecologista – aqui nos EUA eu não me sentia confortável com nenhum médico).

Cheguei no Brasil já com festa: saía todos os dias, muita balada, cerveja, dormir tarde, acordar cedo, viagens para lá e para cá, minha mãe fazendo uma pequena reforma em casa e eu ajudando com sofá pra lá, piano pra cá, arrasta móveis, etc.

Fui para São Paulo para o casamento dessa minha amiga, e mais festa, mais saídas, mais badalação. Meu ciclo foi sempre totalmente desregulado, e ele estava atrasado. Porém eu sentia cólicas – o que eu interpretava como “está vindo”- e fiquei usando absorvente durante 2 semanas. Não vinha. Foi então que eu sonhei – até hoje não sei se foi sonho, realidade, loucura ou Deus. Um senhor, de barba cheia, preta e longa pousava suas duas mãos sobre meu ventre. Com os olhos fechados, ele parecia concentrado. Acordei em um pulo. Suada, ansiosa, com uma sensação de pesadelo.

Dois dias depois fui à farmácia comprar remédio para dor de cabeça e me deu um “clique”: vou levar dois exames de gravidez. No mesmo dia eu fiz um. A segunda listrinha – que indicaria gravidez – saiu tão fraquinha que eu na mesma hora interpretei como negativo. No dia seguinte fiz outro exame com o primeiro xixi da manhã, e então dava para ver claramente as duas listras. Meu mundo caiu. Eu não tinha nem sequer o esboço de uma vida financeira e emocional para dar suporte aquela vida. Meu namorado, que estava nos EUA, ficou em choque. Não era esse o planejamento. Uma semana antes eu havia sentado com o meu big boss em São Paulo e havia acordado dois anos sem férias, muito trabalho, uma equipe nova para trabalhar comigo e eu estava na minha melhor fase de ascensão profissional. Como eu faria?

No dia seguinte eu voltaria para casa dos meus pais no interior do Paraná, porém antes fiz um exame de sangue para ter certeza do que acontecia no meu corpo. Mas eu não precisava da resposta: eu sentia. Sentia vida, sentia meu corpo diferente. Saí da clínica de exames chorando desesperadamente, agarrada com uma amiga que foi tudo nessa hora.

Foram quase 8 horas de viagem para voltar para casa dos meus pais. Eu dentro de um ônibus barato, com um cheiro de urina e salgadinho chips, uma ânsia de vômito e uma madrugada inteira pela frente – meu ônibus saia de SP 11.45pm e chegava só pela manhã. Lá fora o céu desabava em um temporal de raios, trovões e incertezas.

Cheguei na exata hora que meu exame ficaria pronto e seria disponibilizado pela internet. Pelo celular pude ver aqueles números que cientificamente comprovavam que as células dentro de mim se multiplicavam loucamente para gerar um ser.

Os dias foram passando, eu estranha, distante, querendo me conectar comigo. Fui aceitando. A vida, as possibilidades, e de repente falar com o meu chefe e rever minhas possibilidades profissionais não era mais um bicho de sete cabeças. A vida muda e o tempo dá o tom.

Já havia marcado ginecologista para colocar o DIUe fui para contar a novidade e – no meu pensamento – iniciar o “pré-natal”.  Quase ninguém sabia da novidade. Meu companheiro, longe de mim, ia também digerindo a informação e aceitando aos poucos.

Na sala de exames fiquei sabendo que estava já de 9 semanas- entrando na 10. Contava animada que tinha muito sono, enjoos mas que me sentia bem. A médica já estava com o negócio do ultrassom dentro de mim e com uma cara estranha falou: “ele não está se desenvolvendo como deveria”. Eu fiquei em silêncio. Parecia que aquelas palavras não faziam sentido. Quando ela tentou me explicar o que se esperava de um desenvolvimento de um embrião daquele idade parecia que ela tava falando russo , e que a boca dela abria e fechava mas não saíam ruídos. Pediu um novo beta. Falou algo sobre duplicar número, algo que eu não entedi na hora.

Era isso. Eu estava perdendo. E o que eu mais queria era meu companheiro, que estava há milhas de distância. A partir daí eu não lembro de muita coisa, lembro que fiz vários exames. Lembro que fiquei umas duas horas em cima de uma maca enquanto tinham 3 médicos analisando meu ultrassom, e chamavam outros médicos para analisar. Parecia que era algo novo, me senti um objeto a ser estudado.

Era véspera de Natal, dia 23. Minha médica – que até hoje não perdoei, falou que ia viajar e disse apenas “você vai sangrar nos próximos dias, é normal. Revemos você na primeira semana de janeiro”. Fiquei em choque da maneira fria e calculista que ela lidou com tudo. E falou “era apenas um amontoado de células, vc vai ter outro logo”.

Dia 24 não pude ceiar. Cólicas terríveis, e sangue. “É normal”, ela disse.

Procurei outras milhares de médicas – ninguém atendia no Natal. Fui ao hospital, fui tratada tão mal que resolvi voltar pra casa e passar por essa “aprovação sozinha”. Não tinha o que ser feito, no meu entendimento. Dia 27 consegui outra médica. Que foi de uma sensibilidade incrível. Primeiro pq ela me abraçou e perguntou como eu estava de um jeito como uma mãe. Depois que ela explicou tudo que havia acontecido. Fez um ultrassom e detectou que eu ainda teria que fazer curetagem. Eu queria fazer logo e marquei para o dia seguinte.

Entrei no hospital para a curetagem como se tivesse indo ao supermercado. Estava alheia. Minha mãe segurava minha mão e parecia mais triste e nervosa que eu. Na hora de fazer o check in do internamento, uma grávida com seu marido, uma mala linda de maternidade e uma felicidade transbordando de quem iria ver a carinha do filho pela primeira vez. Me contive em mim. Eu queria meu companheiro.

Na sala de cirurgia, a enfermeira “não liga, você ainda vai ter gêmeos”. Pq as pessoas não percebem que esses comentários ferem mais do que o silêncio? Antes de receber a anestesia, os médicos e enfermeiras falavam sobre as festas de fim de ano, viagem para praia e como fazer um peru assado.

Acordei com choro de criança nascendo e não era a minha. Mães ainda na maca passavam pela minha maca felizes. Eu era só vazio.

Eu ouvi “uma gravidez tão no início – nem era bebê ainda” “nem deu pra vc se sentir mãe, né?”  “que bom que foi logo no início e você não se apegou” “logo você vai ter outro”  “tem uma amiga minha que perdeu no oitavo mês, isso sim que é duro”. Pq as pessoas simplesmente não se calam?

Na hora do check out do hospital, pedi um atestado médico para ficar uns dias off. No atestado elas descreveram “curetagem para retirada de embrião”. Achei péssimo. Pedi para mudarem. Fizeram cada de preguiça e indiferença.

Dois anos se passaram. Eu choro até hoje, mesmo sabendo que era “um amontoado de células”, mesmo não tendo vivido nada parecido como mães que perdem seus filhos já formados. Mas eu penso como seria, eu tento pensar como seria se ele tivesse aqui, o que eu ensinaria, como eu estaria. Como meu companheiro seria como pai. Quando eu choro, meu companheiro deita a cabeça no meu ventre e chora junto. A gente se conectou muito mais depois disso. Ele entende todas as minhas lágrimas e silencia junto comigo.

Se tem uma coisa que esse pequeno ser fez pela gente foi isso: nos unir ainda mais. As vezes eu peço desculpas para ele por não ter lutado de forma diferente, por não ter ido atrás de outra opinião, por não ter questionado minha médica. No meu entendimento ele compreende. E ele virá de novo, acredito até com a mesma alma que estava para vir da primeira vez.

Depoimento enviado pela mãe Maria

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