Filho é um presente que Deus empresta pra gente

Flavia Camargo, autora do livro “Quatro Letras” (http://livraria.bookstart.com.br/quatroletras), divide conosco um pouco mais de sua experiência com a maternidade, através deste relato:

“Assim como as demais mulheres, fiquei grávida, sem ter precisado fazer nada para criar aquela vida, a não ser o pequeno trabalho de permitir que um dos meus óvulos fosse fecundado. PARTICIPAÇÃO MÍNIMA na formação de um novo ser, que praticamente se construiu sozinho. Ele mesmo começou a se multiplicar, cresceu, produziu seus próprios órgãos… Não tenho a menor ideia de como se fabrica uma orelha, muito menos um osso, um pé, um sistema linfático e cada uma das partes que o compunham. Mas ele estava lá, inteirinho, perfeito, com tudo funcionando, para a minha felicidade. E de forma gratuita!

Devido à hemorragia que sofri no oitavo mês da gestação, foi necessário fazer o parto às pressas. E, então, de repente, eu tinha um filho!!! Um corpo individual e autônomo, vivendo em algum lugar por aí. Não sei se as outras mães também sentem isso. Mas, como meu parto foi atípico, porque ele nasceu sem respirar, precisando ser levado com urgência para os procedimentos de reanimação, não pude vê-lo. E, por causa disso, fiquei com a impressão de que ELE NÃO ERA MEU.

Abriguei um volume na barriga durante algumas semanas, que se mexia e me mostrava, com seus movimentos, que tinha alguém comigo. Mas, como não podia tocá-lo com minhas mãos, nem vê-lo com meus olhos, era uma presença VIRTUAL. Depois, sumiu! Foi tirado sem que eu, novamente, participasse da remoção. O peso que me acompanhava se transformou em vazio. A VIRTUALIDADE de sua existência ficou, portanto, ainda maior.

Em razão da gravidade do nosso estado de saúde, ele precisou ser internado na UTI neonatal e eu na UTI materna. Durante os quatro dias que ficou vivo, dezenas de metros e paredes distante do meu alcance, familiares me traziam notícias suas. Deitada na cama, ouvia meus parentes se referirem ao bebê que eu havia gerado, sem conseguir assimilar tal afirmação. Como assim eu tinha um filho, se não participei de nenhum detalhe de seu nascimento, desde o instante em que os materiais genéticos se fundiram até o instante em que ele saiu do útero? Imaginava-o dentro da incubadora, sem acreditar que era real. O modo como os fatos aconteceram dava-me a sensação de que O PROCESSO DE SUA VIDA havia se dado À MARGEM DE MIM.

Toda vez que pensava no meu filho, só conseguia me perguntar: de onde ele veio? Como foi parar aqui? Era óbvio que EU NÃO O HAVIA FEITO. EU O HAVIA GANHADO. Ser mãe não me causava qualquer sentido de posse, porque sua concepção, do início ao fim, transcorrera de forma totalmente ALHEIA À MINHA INGERÊNCIA. Depois, ele faleceu, enquanto eu ainda permanecia impossibilitada de ir ao seu encontro. Assim, tanto a nossa separação abrupta, quanto a circunstância de nunca termos sido apresentados um ao outro, foram eventos que consolidaram a certeza que sempre tive de que NÃO SOU SUA DONA.

Questiono se me sentiria diferente, caso a gravidez tivesse terminado do jeito tradicional. Se ele tivesse saído do meu interior e vindo direto para o meu colo, será que eu pensaria que ele me pertence? A maneira como tudo ocorreu tornou muito clara a compreensão de que ele não é meu filho. ELE É FILHO DE DEUS (ou da Natureza). A Inteligência Universal é a responsável pela organização da matéria que nos dá origem. Ela é a verdadeira mãe de todo mundo. Quando engravidei, não me tornei proprietária do Igor, mas apenas alguém que recebeu o privilégio de passar algum tempo na sua companhia. Saber disso não diminui o valor que ele tem. Pelo contrário, aumenta esse valor, porque traz a consciência do quanto a oportunidade de os seres humanos estarem juntos é especial!”pexels-photo-86161

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