A dor imensurável

Eu logo percebi que o médico mexia demais no aparelho, percebi que o “meu arrozinho” não piscava como da outra vez. No entanto a gente nunca imagina o pior, na verdade, acredito que a gente sente, mas não quer de fato acreditar! Eu havia me sentido estranha alguns dias antes, até comentei com o Ricardo: “Estou me sentindo estranha”. Ele: “Estranha como? Eu: “Ah, não sei, diferente de como eu estava me sentindo”. Hoje, quando paro para pensar sobre isso, talvez aquele momento tenha sido o meu sexto sentido me dizendo “Paola, alguma coisa está errada”, mas como fisicamente eu não sentia nada, não dei bola. E eis que estávamos os dois ali, aguardando o parecer médico, que não parava de fazer perguntas para a assistente, que por sua vez não parava de olhar para a ultrassonografia anterior. Por fim ele me olhou e disse: “Não tenho boas notícias. Ele nem precisava continuar, poderia ter parado por ali. Eu queria sair correndo, queria sumir, queria que aquela maca me engolisse, não queria ouvir mais nada, mas ele continuou: “Infelizmente o embrião está sem vitalidade.

A gente ouve falar sobre abortos, mas quando é com a gente é totalmente diferente. Só quem passa sabe! Não tem explicação! Saímos os dois da clínica em silêncio, não havia palavra a ser dita. Apenas silêncio. Assim como o coração do meu filho, silêncio.

De mãos dadas fomos caminhando as poucas quadras até o trabalho dele. Eu não lembro o que veio depois. Se não estou enganada, fui à casa de minha mãe dar a má notícia, mas não tenho certeza. Lembro pouquíssimas coisas dos dias seguintes. Lembro de ir comer sushi, já que grávida eu não podia. Lembro de tomar cerveja, já que grávida eu não podia. Lembro de ler três livros aquela semana, embora eu não lembre das histórias. Era quase como se não tivesse acontecido. Para quem olhava de fora, podia até parecer que eu estava feliz por ter acontecido, já que estava aproveitando para fazer tudo que grávida eu não podia. Mais tarde, na psicoterapia fui entender que eu estava em choque e que aquela era uma maneira de fugir da minha realidade, de não pensar no que tinha acontecido, no que estava acontecendo.

O “meu arrozinho” parou de se desenvolver na 6ª semana, talvez no mesmo dia da primeira ultrassonografia. Eu já estava na 9ª semana. Como pude não sentir nada? Porque não tive nenhum sintoma? Nenhum sangramento? Porque meus enjoos continuavam? Três semanas eu fiquei com meu filho morto dentro de mim sem perceber! O primeiro sentimento quando “caiu a ficha” foi culpa. Impossível não sentir culpa. Foi aquele dia. Aquele movimento. Aquela aula. Eu deveria ter me cuidado mais. Eu deveria ter feito aquilo. Não ter feito aquilo. É uma culpa esmagadora!

A minha médica achou melhor esperar mais duas semanas para ver se ocorria o aborto espontâneo, se meu corpo “expelia”, essa foi a palavra usada. Resumindo, eu passei o natal e a

virada de ano, que deveriam ser muito especiais para nós, tendo meu filho dentro de mim sem vida.

Foi aí que começaram as lágrimas. Foi nesse momento que eu comecei a entender a minha realidade. Aí que os dias voltaram a acontecer, mas eles passavam em câmera lenta. Eu queria que fossem mais rápidos e quanto mais eu desejava que tudo acabasse de uma vez, mais lentos os dias ficavam.

Raiva. O segundo sentimento foi raiva. O meu corpo havia me traído! Eu sempre confiei nele, eu conhecia ele, porque ele fez isso comigo? Porque não mandou um sinal? E agora, porque ele não “expelia” meu filho? Qual o problema? O ano virou e as pessoas encontravam-se na expectativa com a chegada desse novo ano. E eu? Eu havia perdido todas as expectativas! Nada mais importava!

Dia 04 de janeiro liguei para minha médica comunicando que não havia ocorrido o aborto espontâneo, nem sinal, nem uma única gota de sangue. Marcamos de nos encontrar no hospital no dia seguinte, em jejum, para o procedimento de curetagem. Minha mãe foi comigo, eu me sentia mais forte tendo ela perto de mim.

Foram horas de espera. Primeiro a médica que não chegou no horário marcado. Depois, precisei aguardar um encaixe na ultrassonografia para confirmar que estava tudo lá ainda. Então, tive que esperar a médica voltar do seu almoço, olhar o exame e dar seu aval para que prosseguíssemos com a preparação para o procedimento. Foi um dia inteiro de hospital. Na hora do procedimento, estava tão fora de mim que nem meu tipo sanguíneo eu soube dizer, e eles precisaram fazer o teste na hora. Recebi a anestesia geral e não vi mais nada.

Quando acordei da anestesia, já na sala de recuperação, um sentimento de vazio tomou conta de mim. Me sentia uma casca seca, oca por dentro! Eu não tinha forças para ficar acordada, ou, eu não queria ficar acordada, não sei! Os enfermeiros falaram que eu passei bastante mal, vomitei muito, tiveram que me dar remédio para cessar o vômito o que proporcionou mais sonolência ainda. Eram quase 21h quando finalmente consegui me manter acordada, tomar a sopinha do hospital, ir ao banheiro e então receber alta. Ricardo já me aguardava apreensivo. Passamos na farmácia pegar alguns remédios e seguimos para casa. Eu só queria chegar em casa. Queria dormir e esquecer tudo. Como se fosse possível!

Recebi muitas ligações e algumas visitas. As pessoas se preocupam conosco, com nossa saúde física e mental, querem saber como você está, querem ajudar. E a gente de fato precisa de ajuda! Mas o fato é que as pessoas não sabem como ajudar, nem a gente sabe como receber a ajuda. A verdade é que as palavras não bastam, não preenchem o vazio. Frases do tipo “você é jovem, logo engravida de novo ouo feto deveria ter algum problema, foi melhor assim” elas não ajudam!

Na hora, nós mesmos tentamos nos convencer de que isso é verdade! Mas conforme os dias

vão passando aquilo que deveria consolar se torna algo dolorido demais. Piora ao invés de melhorar a situação. A triste realidade é que as pessoas não sabem como lidar conosco, nem os médicos sabem, e tampouco nós sabemos.

Era janeiro, eu estava de férias, mas em casa, por causa do atestado médico. Tínhamos uma viagem programada que teve que ser cancelada. Para não ficar 100% do meu tempo trancada dentro de casa eu procurava sair, fui visitar alguns parentes, alguns amigos, a fim de ocupar meu tempo, evitando ficar sozinha e me lamentado demais.

Do nada, às vezes me pegava chorando, eu nem percebia como começava. Quando me dava conta lá estavam as lágrimas. Lembro-me de assistir o capítulo final de um seriado que gostávamos bastante, terminei chorando porque de fato foi bem emocionante, mas depois eu não conseguia mais parar de chorar. As lágrimas que iniciaram pelos personagens fictícios cessaram e deram espaço as minhas próprias lágrimas, ao meu próprio sofrimento.

Começaram as insônias, deitar na cama era um martírio. O sono levava horas para chegar. Várias noites eu chorava baixinho com o rosto enfiado no travesseiro para não acordar o Ricardo. Às vezes eu chorava de ódio por não conseguir dormir. E às vezes as lembranças me viam à mente e eu chorava de tristeza mesmo. No início eu tinha vergonha de chorar, principalmente na frente das pessoas, me parecia uma fraqueza, e como todos estavam o tempo todo a dizer que eu era forte, e eu queria de fato ser, não queria demonstrar fraqueza, por mais que me sentisse extremamente fraca, por mais que tivesse vontade de gritar: “Eu não quero ser forte!Chega de ser forte! “Já fui forte por tempo demais! Com o tempo, eu descobri que chorar ajudava, aliviava. Então, quando as lágrimas vinham eu deixava elas livres a transbordar pelos meus olhos, sem medo, sem vergonha, sem limites.

Já tinham se passado 17 dias da curetagem quando começou o sangramento. No princípio pensei que já fosse o primeiro ciclo menstrual pós gestação, mas quando a intensidade do sangramento aumentou muito além do que eu estava acostumada, comecei a ficar preocupada. Tentei falar com minha médica, mas não consegui. Fui para o pronto socorro, expliquei tudo desde o início e fui liberada com a receita médica de um medicamento que deveria diminuir o sangramento, um desses remédios que são receitados após cirurgias para evitar hemorragia. Naquela noite minha médica retornou minha ligação e pediu que eu dobrasse a dose do medicamento que haviam me receitado. O sangramento diminuiu um pouco no dia seguinte e eu fiquei aliviada.

Naquele mesmo dia, à noite, saímos jantar com um casal de amigos e quando levantamos para pagar a conta eu senti algo descer, foi uma sensação horrível. Corri para o banheiro e um coágulo de sangue do tamanho de um ovo de galinha tinha saído de dentro de mim. Eu fiquei ali um tempo, sentada e olhando para aquilo tentando entender, mas não consegui.

Devo ter saído pálida do banheiro porque a cara do Ricardo ao me ver foi de pura preocupação.

Consegui falar com minha médica que me mandou fazer uma ultrassonografia. Meu útero estava cheio de “sujeira“. Logicamente que culpei minha médica. O que ela tinha feito de errado? Porque não tirou tudo que precisava? Depois, quando estive pessoalmente com ela para lhe mostrar o exame, ela me explicou que quando se trata de uma curetagem de primeira gestação, o procedimento padrão é apenas retirar o saco gestacional que abriga o feto, e meu corpo deveria expelir o resto. O que mais uma vez não aconteceu. Ou seja, mais uma vez o problema sou eu! Porque meu corpo não tem a capacidade de expelir as coisas? Essa história toda estava me cansando, parecia que conforme eu ia me recuperando, aparecia um novo problema, mais uma notícia ruim para me puxar para baixo.

A médica deixou claro que meu útero precisava ficar limpo, tudo aquilo precisava sair, e que se não saísse naturalmente eu precisaria de uma nova curetagem, e dessa vez seria necessário fazer a raspagem completa, e que isso apresenta um risco maior, pois poderia machucar meu útero, me impedindo de ter outros filhos.

Espera aí? É isso mesmo que eu estou ouvindo? Acabei de perder um filho, e corro o risco de nunca mais poder engravidar? É isso mesmo? Saí do consultório em pânico, com uma receita para um medicamento que poderia me ajudar, mas que a médica não sabia se eu iria encontrar. Fui em todas as farmácias da cidade e não encontrei. O medicamento não é mais vendido já há algum tempo. Comecei a apelar para os chazinhos das vovós. Procurei na internet todos os possíveis chás abortivos que vocês possam imaginar. E tomei todos eles! Uma mistura pior do que a outra. Tentei de tudo! Eu não queria de jeito nenhum fazer uma segunda curetagem.

Algumas pessoas me diziam que era eu que estava retendo, que inconscientemente eu não queria que saísse, eu estava segurando. Ou seja, a culpa era minha. De novo! Muito bem minha gente, vocês conseguiram me deixar ainda pior!

O Ricardo foi a pessoa que mais ajudou. Várias vezes ele apenas me abrigava em seus braços e cuidava de mim, não dizia muita coisa, mas estava sempre ali. O olhar de apreensão dele com meu desespero em certos momentos, era algo que doía. E eu sentia que ele queria poder ajudar mais, mas que não sabia como fazer. Hoje analisando, me sinto um pouco egoísta, porque a perda não era só minha, era dele também, mas eu não conseguia enxergar além da minha própria dor.

Continua…

Depoimento da nossa parceira Paola Zonta

Anúncios

3 comentários em “A dor imensurável

  1. Impressionante como sua história parece com a minha. Por vezes parecia que lia algo escrito sobre mim mesma. Que Deus nos ajude a superar. Só quem passa por isso sabe a dor que é. A dor física é o de menos…existem comprimidos, remédios mas e a dor na alma? Aaaa se houvesse remédio para estancar essa dor. Que bom que temos espaços como este para desabafar e compartilhar histórias. Encontrar relatos e pessoas que passaram pelo mesmo é muito reconfortante. Sinto minha dor acolhida e compreendida em cada depoimento que leio. Força para todas nós!!!!

    Curtir

  2. Eu vivi o mesmo que você. A unica diferença é que estava sozinha. Meu marido estava viajando. Como não tenho mãe, não tive onde buscar socorro.
    Mas Deus me abençoou um ano depois e hoje meu bebê está com seis meses.
    Creio que sua bênção mesmo está bem próxima.

    Curtir

  3. Passei por duas perdas…. Já tem tempo, hj tenho dois filhos ( uma menina de 3 anos e um menino de 1), mas jamais vou me esquecer do que senti. A angústia, vazio, culpa, tristeza, raiva, mais tristeza….
    A expressão de desespero do meu marido qdo jo US de 12 semanas a médica disse: seu bebê parou, esta morto desde a 10 semana… Só consegui olhar pra ele e pedir desculpa!
    Espero que todas nós possamos um dia “esquecer” a dor que é passar por um aborto. Força meninas, Deus faz sempre o melhor!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s