Questões sociais da morte

Por Érica Quintans

           A mitologia de Tânatos expressa, através de sua família mítica, como as pessoas compreendem a morte em nossa sociedade. Seu irmão gêmeo Hipno (sono), a deusa Nix (noite), Moira (destino) e Queres (vinda do caos) expressam o terror da morte associando-se a estados sombrios do doente nas longas noites de insônia e aflição. Hoje, vivemos em uma sociedade Tanatofobica, onde o medo da morte é intenso.

            Ao estudarmos culturas e povos do passado podemos perceber que o homem sempre negou a morte e provavelmente sempre negará. Hoje em dia, morrer é triste demais por diversas razões, principalmente porque se tornou algo solitário, muito mecânico e desumano (KÜBLER-ROSS, 1998). O paciente é muitas vezes visto como um objeto deixando de ser uma pessoa, acarretando em uma coisificação desse sujeito.

            Para Ariès (2003) antigamente a experiência da morte poderia ser classificada como domada, onde era vista como familiar e esperada, um processo natural da vida. Ela deveria ser anunciada por um ritual, pois a morte repentina era considerada infame e vergonhosa. Havia muitas cerimonias de despedida, sendo a morte algo próximo das pessoas, totalmente natural.

            A forma como lidamos com a morte hoje é interdita/invertida: hospitalização, tecnologia, uma não aceitação da morte, de forma a tentar evitá-la. A morte passa a ser uma inimiga e muito temida. Em contraste com a morte domada, o desejo atualmente é pela morte repentina, pois não causa sofrimento; logo, sua presença incomoda, deve ser banida do nosso cotidiano; assim, o local da morte é o hospital (ARIÉS, 2003).

            Por sua vez, Kovacs (2003) traz o conceito de morte escancarada, onde ela invade, penetra. Ocorre nas ruas, na frente de quem estiver perto, sem máscaras ou anteparos: é uma morte televisionada. São mortes brutais, como chacinas e latrocínios, deixando as crianças expostas a elas. O impacto desta forma de lidar com a morte gera sentimentos de o terror, a insegurança e a vulnerabilidade.

          Nossa compreensão sobre o processo de morrer e sobre a morte deve começar a ser debatido nas escolas, nos círculos de amizade e no seio de nossas famílias. Não pensar na morte, não faz com que ela não aconteça. Precisamos percebê-la como um processo natural e esperado, fazendo com que o tempo que temos neste mundo seja bem aproveitado, para que no final olhemos para trás com a sensação de que valeu a pena!

Érica Quintans é psicóloga clínica e mestranda da PUC-Rio 
Email: ericatq.psi@gmail.com
Página no Facebook: http://www.facebook.com/psicologaericaquintans
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