Carta ao querido Pedro

 Rio, 7 de fevereiro de 2016

Meu Querido Pedro,

Hoje completam exatamente 3 semanas que você se foi.
Desculpe não ter escrito antes, mas estive tão preocupada em me culpar e buscar culpados que me esgotei física e mentalmente.
Todo o tempo as mesmas perguntas: Por que eu?  Não deveria ter subido aquela escada? Será que foi o remédio de gripe? O médico não deveria ter feito mais ultras?
Mas, acompanhadas das perguntas, quase devaneios, vem os momentos de lucidez e os questionamentos: Porque não eu? Porque acontece com outras e não pode acontecer comigo? Quantas mulheres sobem escadarias imensas e tudo bem? Meu médico é ótimo e tomou todos os cuidados. É duro descobrir que não existem culpados.
As pessoas continuam me olhando com certo estranhamento. Seu pai fez uma cara de preocupado quando me viu hoje sentar para te escrever de novo. Ele não entende que essa é a minha catarse da dor. Algumas mulheres ficam contidas e engolem, outras explodem em choros compulsivos, outras buscam suporte na religião e na fé. Acho que todas as formas são legítimas e devem ser respeitadas.
Ontem, descobri uma nova culpa. Acordei com vontade de ver o sol. Abri todas as janelas da casa e parece que junto com ele entrou também uma pulsão de vida dentro de mim. Senti como se estivesse te traindo. Traindo a sua memória que me é tão cara. Depois de um tempo, voltei a fecha-las.
Mas hoje, veio a vontade de te escrever e percebi o quanto isso é importante para mim. Uma amiga me apresentou ao DO LUTO A LUTA e descobri que existe esse espaço para compartilhar a minha dor, os meus sentimentos, as minhas cartas. Sei que aqui não vou ser olhada com estranheza e de quebra, talvez ainda possa ajudar outras mulheres que sentem coisas parecidas e se recolhem, sem voz.
Amanhã, é provável que eu queira ir na rua. Talvez saia para dar uma volta com seu pai. Ele disfarça, mas também esta muito triste. Ou será que os homens sentem diferente? Preciso voltar ao trabalho. Meu olhar ainda fica perdido no vazio, de vez em quando. Qualquer bobagem me faz chorar, até propaganda de margarina que tenha criança….
Mas a vida segue, Pedro, meu amor. Me mandaram para a terapia. Tudo bem, eu vou. Sei que a intenção é boa e vai me ajudar. Quarta feira volto ao trabalho. Quando sentir vontade, volto a te escrever. Será que a terapeuta vai deixar? Depois te conto!
Sua mãe,
Bel

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Um comentário em “Carta ao querido Pedro

  1. Meu Deus!!! Que força. Me sinto assim tentando achar culpados. Não existem culpados. … E sigo, cheia de vazio, cheia de medo , cheia de rancor….E SEM VOZ!!! POIS ELA SE FOI TB… Mas passa …
    Querida Bel , sou terapeuta é a sua com certeza vai te admirar e te ajudar a fazer cartas para o Pedro …. Não esquenta!!!!! Tido vai dar certo!!! Simplesmente não chegou a hora ainda…. Mas é muito difícil falar…. Comigo? 5 perdas… 5 me acompanha e não é fácil…. Mas tem o sol!!!!

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