“Ser mãe é Dom”

“Nossa gestação estava indo muito bem até o dia 10/12/2015, quando ao fim do dia percebi que algo errado estava acontecendo comigo. Cheguei com uma amiga ao consultório de uma angiologista. Grávida precisa fazer xixi. Saí do elevador na reta até o banheiro. Só deu tempo de entregar minha bolsa à minha amiga, entrar no banheiro e ver sangue. Sangue por todo os lados. De uma hora para outra tinha sangue nas mãos, nas pernas, nos pés. Pra dizer a verdade não sei quanto tempo passou, provavelmente 5 minutos ou menos até a entrada na emergência do hospital que era bem pertinho dali. Hora da ultra. Ainda na emergência a médica me explicou que com 19 semanas de gestação, não estaríamos passando por uma ameaça de parto prematuro mas sim, de uma ameaça de abortamento. Meu mundo caiu. Me levaram na maca até a sala de ultra e eu não conseguia olhar pra tela. Me lembro de tremer muito e ficar olhando pro meu marido que diferente de mim, olhava fixamente para a telinha esperando ver nosso bebê bem.

De repente eu ouvi. A bateria mais gostosa. O som mais gratificante e reconfortante que eu poderia ouvir. Meu bebê estava bem, seu coração em disparada e eu em silêncio, agradeci. Agradeci a Deus pela vida do meu filho. Ainda sabia que algo estava errado mas minha filha estava bem e eu não mediria esforços para fazer tudo ficar bem.

De volta à emergência com o coração aliviado tivemos a informação de que eu estava com um descolamento de 1/3 da placenta, quase 8cm e isso era demais. Teria que ficar no hospital para monitorar a Maria e a evolução do descolamento. Tive alta 10 dias depois para passar o restante da gestação em repouso. Estava com 21 semanas.
Algumas pessoas (sim, algumas poucas) que eu conheço mas que não se conhecem, me disseram que o Dom havia cumprido sua missão na Terra. Que eu não entenderia mas que a única coisa que ele provavelmente precisava era do amor que nós demos a ele. E que cumprida sua missão, ele havia ido. Claro que eu como humana e egoísta que sou só conseguia pensar: – Mas e eu? Mas e o meu marido? Conforme os dias passavam, outras pessoas diziam o mesmo. Mesmo sem que eu entendesse direito, já que esta não é a minha religião, eu comecei a aceitar essa afirmação já que era o que fazia mais sentido até aquele momento.
 
 
Tudo se passava como um filme de terror… Manhã do dia 27/12/2015. 3º dia seguido indo ao hospital . 2ª internação, desta vez na Unidade Semi-Intensiva. Dor, muita dor. Morfina. Visitas e novos planos de revezamento para ficar comigo lá. De repente era noite e éramos só nós, eu, marido e filho. Pra mim ok. E logo consegui cochilar. Lembro de acordar com uma dorzinha querendo reaparecer e questionei a enfermeira sobre minhas drogas. Assim que ela voltou com a seringa e aplicou, a dor foi de 4 à 14 num piscar de olhos. Quando me internaram, a enfermeira pediu que eu classificasse minha dor de 0 à 10. Eu respondi: – 13. Sim, 13. E estava em 4 graças à Morfina. Naquele momento eu percebi que eu não sabia o que era dor física até sentir essa. Em questão de poucos minutos a dor foi a 15… logo a 16… e… escuridão. Lembro das vozes mas acho que a dor me fez ficar “apagada”. Lembro de ouvir o coração do meu filho batendo e a médica mandando me levarem rápido para o Centro Cirúrgico pois eu estava em trabalho de parto. Não me lembro de muita coisa, nem de como cheguei lá… Lembro da voz doce de uma moça que me deu a mão e me pedia calma, dizia que tudo ia ficar bem. Isso é a última coisa que me lembro antes de me sedarem de vez.
 
Acordei e perguntei sobre o meu filho. Me trouxeram ele. Tão lindo. Tão a cara do meu marido. Dormia o sono dos anjos. Disse a ele o quanto a mamãe havia amado ele e que nunca iria esquecê-lo. Se eu tivesse noção que aquele era o primeiro e último momento que eu veria meu filho, talvez desejasse que o tempo parasse ali.
 
Há uns 2 meses fui até a beira da praia… Sentei na areia e conversei com o Dom. Na verdade, eu sempre conversei com ele. Dentro e fora da barriga. Mesmo depois de sair da maternidade sem ele.
Naquele dia na praia, disse a ele que eu tinha que deixá-lo ir. Que eu o amava mas que eu não poderia mais prendê-lo aqui. Pedi que se ele estava me ouvindo que ele me deixasse saber. E ele deixou. No meio da areia tinha uma estrela. Uma estrela de papel dourada. O mais dourada possível para que eu visse. Fui até lá e peguei pra ter certeza do que era. Naquele momento percebi que eu realmente precisava deixar ele ir. Não poderia ser só uma promessa, eu tinha a obrigação de cumprir. E eu deixei… O mar levou a estrelinha e eu me senti mais leve.
Hoje ele é a mais brilhante estrela que eu vejo no céu todas as noites…”
Antes do meu filho partir, eu criei um blog (http://ser-mae-e-dom.blogspot.com.br) para trocar experiências e contar a minha história…
Depoimento enviado pela mãe Rita Taranto
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