Sentimentos comuns no enlutado

Diante do luto muitos se questionam se o que estão sentindo é normal ou não.

As emoções presentes são variadas e oscilam com uma intensidade que foge do estado “conhecido”, de quando o indivíduo não está enlutado.

Quem perde um bebê durante a gestação ou neonato rompe com planos, sonhos e expectativas, rompe também com um vínculo que se constrói desde a barriga. A perda impossibilita o exercício dos papéis que foram se desenvolvendo ao longo dessa gestação: de mãe, pai, irmã(o), avós, tios e etc.

Perder um bebê é definitivamente algo que quebra com o esperado pela ordem natural do ciclo vital e por essas e outras razões pode dar origem a um processo de luto.

O rompimento de um vínculo importante traz a DOR, tanto emocional quanto, por vezes, física, como falta de ar, taquicardia, dores no peito e outras partes do corpo. Sentir-se com humor deprimido, falta de motivação e TRISTEZA é algo comum nesse processo. Chorar, buscar coisas que remetem ao filho perdido ou experimentar um certoisolamento social, são reações ligadas à essa dor.

Muitos enlutados descrevem também um sentimento de CULPA e responsabilidade pela perda, e passam a questionar: “E se eu tivesse feito isso ou se eu tivesse evitado aquilo?”.

É possível também sentir ALÍVIO. Quando a gestação vem em um momento muito difícilou indesejado, quando o ambiente não comporta a chegada de um bebê ou dificultaria planos em curso, pode surgir essa sensação, nem sempre autorizada socialmente, e que pode gerar mais uma vez a culpa por sentir esse alívio diante de uma morte.

Além da dor, do alívio e da culpa é natural sentir RAIVA. Na perda gestacional ou neonatal esse sentimento muitas vezes é atribuído à equipe médica, às pessoas que não reconhecem ou acolhem o luto e inclusive a Deus e outras entidades religiosas.

O MEDO e a insegurança, principalmente em relação a uma nova gravidez, quando isso é possível, são esperados nesse processo, pois diante da perda ocorre a ruptura do mundo presumido, ou seja, uma quebra com o mundo que conquistamos, que conhecemos, o que sabemos ou pensamos saber. Ao perder um ente querido, o mundo presumido muda e um novo mundo será construído a partir de então (Parkes, 1998). Esse caminho de reconstrução pós-perda traz o receio e a insegurança do que pode ser encontrado pela frente: o desconhecido.

A SOLIDÃO e sensação de DESAMPARO são parte do vazio deixado pela perda, a pessoa se sente sozinha na sua dor e não pertencente à alguns contextos com os quais se identificava anteriormente, até encontrar um novo lugar e significado para sua experiência. Os lutos por perda gestacional ou neonatal têm um agravante para esses sentimentos de solidão e desamparo, por serem comumente invalidados e poucoreconhecidos pela sociedade.

 O enlutado pode ir da ANSIEDADE/AGITAÇÃO para a FADIGA/CANSAÇO sem se dar conta das razões pelas quais seus sentimentos alternam com tanta frequência. O luto é algo muitas vezes confuso e perturbador, mas, apesar de todo o desconforto, é um trajeto necessário para ocorrer a elaboração.

Tudo é possível no luto, mesmo aquilo que não faz parte do entendido como o “normal” para a pessoa antes da perda, mas quando a dor torna-se intolerável e ultrapassa qualquer recurso possível de enfrentamento, o enlutado ou a rede de apoio devem buscar ajuda especializada.

Paula Leverone (CRP 08/18775)

Mariana Bayer (CRP 08/19103)

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