Revelações de um clube secreto

 

                 Em 2009, aos 34 anos engravidei do meu primeiro filho: Luiz Henrique, que hoje tem 6 anos e é a alegria de nossas vidas.

Planejava o segundo filho desde 2014, e, no dia 01 de janeiro de 2016, ás 08:00h, acordei e realizei o exame de urina quando descobri que estava grávida. As mães que estão lendo bem sabem quão divino e mágico é este momento. É o momento em que sentimos como recebendo um grande presente de Deus, uma nova vida se formando dentro de nós. Meu ano de 2016 seria inesquecível, nossa família ficaria completa e todos os meus sonhos de menina estariam realizados.

A felicidade foi geral; minha mãe; meu pai; minha sogra; meus irmãos; cunhadas, enfim, todos comemoramos a vinda de um novo bebezinho.

A alegria reinava em minha vida, todos os dias se tornaram floridos e ensolarados. É muito grande a emoção de ter uma pessoa sendo gerada dentro de si. Tudo muda; o corpo muda, os hormônios mudam, o humor muda, o sono muda, a fome muda, os enjoos aparecem, é a natureza nos preparando para receber um ser humano pleno. Confesso que enfrentei muita tensão em razão do Zika. Mas isso não tirou a alegria de nossos dias, não havia motivo para não sorrir.

A vinda de um bebê gerou ciúmes no meu mais velho. Agora ele deixou de ser filho único e passou a ser o irmão mais velho. Passaria a ter um companheiro na vida. Nossas conversas nos almoços passaram a ser deliciosas e giravam em torno do sexo e dos nomes do baby. Também começamos a planejar o quarto e tudo que ele mudaria em nossas vidas.

O primeiro ultrasson foi perfeito – ouvi o coraçãozinho bater e vi aquele serzinho pequenino que estava dentro de mim. Guardo comigo essa lembrança em uma gravação feita em um pen drive.

Instalei um aplicativo em meu celular, onde semanalmente recebia um vídeo com a evolução do bebê, assistíamos juntos em casa. Era delicioso.

Na nona semana resolvi fazer o exame de sangue para descobrir o sexo, e veio a grande notícia que seria um menininho. Foi aí que meu mais velho começou a curtir a vinda do irmão. Ao receber a notícia, imediatamente, se prontificou para separar brinquedos e roupas para o irmão.

Ainda tínhamos dúvidas sobre o nome; João Eduardo era o favorito e é assim que o chamarei para sempre.

Eu já conversava com meu caçula, já escutava músicas clássicas para que ele apurasse o gosto musical, já tinha mudado minha alimentação, minhas roupas, até minha posição de dormir eu já estava alterando. Em meus pensamentos tentava lembrar de como foi com Luiz Henrique, repetiria tudo que tinha dado certo e tentaria mudar o que fiz de errado.

Me inseri em todos os grupos de mães de quarenta e minha literatura passou a ter exclusivamente este tema. Tinha decidido curtir ao máximo aquela que seria minha última gravidez.

Finalmente chegou o dia do ultrasson de doze semanas, quando finalmente veríamos João Eduardo já no formato de um bebê e não mais de um feijãozinho. Algo me dizia para não fazer meu pequeno faltar a escola para nos acompanhar. Me sentia estranha e já estava há 3 noites acordando no meio da madrugada.

No dia 24 de fevereiro de 2016 ás 16:00h esse sonho acabou. De forma muito carinhosa, a médica que fez o ultrasson, Dra. Thais, nos informou que o bebê tinha vindo a óbito. A gestação tinha parado de evoluir na sétima semana. Naquele momento entendi a sensação de quando dizem que o “chão se abriu”, que “senti uma facada no coração”. Graças a Deus, meu marido estava ali ao meu lado para juntos no abraçarmos e chorarmos nossa dor. Ele no seu papel social de homem se fez forte e me deu todo o apoio, foi a minha base. Até hoje não sei o que ele sentiu ao perder um filho. No dia seguinte fiz a curetagem e confesso que foi muito muito difícil saber que meu bebê se tornou lixo hospitalar.

Dias de lágrimas se tornaram comuns, tentei esconder do meu filho, mas acabamos contando e a reação dele foi simples e pura, pois com os olhinhos cheios de lágrimas disse que Deus tinha colocado asas em nosso feijãozinho e o levado para céu.

Graças a Deus recebi muito amor e carinho de todos: marido, filho, familiares, amigos, alunos. Passados dois meses, estou bem melhor, as lágrimas ainda me acompanham, mas não são diárias.

Refleti muito antes de escrever e publicar este texto onde divido esta história triste. A decisão de escrever foi mais fácil já que certamente contribuiria com o processo necessário de entender e amenizar minha dor.

Por outro lado, a decisão em divulgar foi amadurecendo com o tempo e hoje sinto que estou preparada para expor parte da minha vida, não com a finalidade de me vitimar, mas sim, para trazer a tona uma reflexão, de como nossa sociedade não sabe enfrentar a perda de um filho durante a gestação.

Sempre imaginei que as mulheres sofriam muito com isso, mas agora posso testemunhar e espero contribuir para que esse momento seja menos doloroso. Há uma cobrança da sociedade de que temos que ser fortes e que é muita fraqueza sofrer por um “feto” que sequer vimos o rosto.

Não me conformo com isso e por esta razão resolvi não me calar.

Minha história não é inédita. Não é apenas a Lauane que passou por isso. Maria, Carol, Cris, Anas, Priscilas, Teresas, Lucianas, centenas de mulheres passam por isso todos os dias. Algumas passam por isso uma, duas, três vezes, mulheres realmente fortes. A grande maioria calada e em segredo.

Nunca mais esquecerei que perdi meu menininho. Isso não quer dizer que sou fraca e insegura, quer dizer apenas que sou uma mãe que amou seu filho desde o primeiro momento.

Já me senti culpada, como se o óbito fosse minha culpa. Os médicos não souberam apontar as razões, talvez e talvez são as respostas.

Ouvi de muitos queridos que “foi melhor assim”, “Deus sabe o que faz”, “virá outro bebê”. Não são palavras confortantes. Realmente não sabemos como lidar com este momento.

Não há como considerar a perda de um filho como algo “melhor”. Quando decidi ser mãe novamente me dispus a ter um filho e ponto, não condicionei se ele seria menino ou menina, perfeito ou especial, seria meu filho do jeito que viesse e o amei incondicionalmente.

Deus não foi o culpado pelo que aconteceu. Deus é amor e não creio que ele tenha decidido me mandar o bebê para depois me retirar e me fazer sofrer. O Deus que creio é bom o tempo todo. É meu pai celeste. Não imagino um pai humano colocando seu filho para queimar seu dedo, sob a desculpa de que ele vai crescer e que será bom para ele. Creio que as coisas ruins que acontecem não vem de Deus, mas essa é uma conversa fundada na Palavra de Deus bastante longa. Deus me acolheu e me consola. Ele não pode ao mesmo tempo ser o Consolador e o responsável pelo meu sofrimento. Deus me levantou e está me restaurando.

Mesmo que eu um dia tenha outro filho, nada e ninguém substituirá o que perdi. Ele é único, virou uma estrelinha e está no Céu. Era um ser vivo e não apenas um feto que se tornou lixo hospitalar. Dia 10 de setembro de 2016 seria a data provável do nascimento. Nunca mais esquecerei esta data. Ele não se tornará um nada, não para mim, sua mãe. Ainda me pego imaginando como ele seria, com quem seria parecido.

Fico pensando como a legislação precisa melhorar neste tema. Meu bebê foi jogado como lixo hospitalar. Gostaria que ele tivesse sido sepultado e recebido um nome, acho que é o mais digno para um ser vivo. Há enorme discussão jurídica de quando a vida começa. A corrente que no momento é majoritária é no sentido de que a vida começa quando o espermatozoide e o óvulo se unem e são inseridos dentro da barriga da mãe. O direito brasileiro protege o nascituro desde o Código Civil de 2002. Mas ainda temos muito a evoluir.

Se eu não tivesse passado por uma curetagem e tivesse tido um aborto espontâneo, sequer teria direito a uma licença no trabalho. E o pai? Esse não tem direito ao luto. Nem mesmo de chorar. Que mundo é esse? A perda de um filho, nascido ou não, é um luto. Não acho que a dor seja maior ou menor dependendo do tempo gestacional, entendo que isso é muito subjetivo, não há como medir o amor. Existem grupos nas redes sociais de mães que resolveram falar sobre o tema, um verdadeiro clube secreto. Quem tiver interesse sugiro visita à página do Luto à luta. É um grupo que apoia famílias que enfrentam perda gestacional e neonatal. Precisamos conversar mais sobre isso.

Depoimento enviado pela mãe Lauane

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