Maria Esperança – um privilégio em nossas vidas

Meu nome é Polyana, tenho 36 anos e gostaria de dividir minha história com vocês.

 Há dois anos eu vinha tentando engravidar sem sucesso, com 35 anos já estava sem esperanças e já havia me conformado, quando parei de tomar os remédios indutores de ovulação e parei de me preocupar tanto veio a surpresa, eu estava grávida.

  Meu companheiro e eu ficamos extremamente felizes, e conforme os dias passavam eu sentia meu corpo mudando e amava mais e mais essa criança que crescia dentro de mim. Chegou o tão esperado dia do exame morfológico, até então ainda não sabíamos o sexo, tudo estava indo muito bem, descobrimos que eu esperava uma menina, mas nem tudo estava tão bem, quando chegou a hora de examinar a região torácica veio a notícia que não queríamos ouvir, tinha algo errado, foi diagnosticado uma malformação muito rara no coração da nossa princesa chamada Ectopia Cordis, o tórax não fechou completamente e parte do coração estava se desenvolvendo dentro da caixa torácica e outra parte estava fora, foi um choque até para o médico que estava fazendo o exame, ele nunca havia visto algo assim antes, inclusive pediu alguns dias para entregar o exame, pois ele não sabia o que escreveria no laudo. Quando saímos do consultório desabamos e choramos muito.
  Já estava no pré natal de alto risco, sou hipertensa, e quando mostrei os exames para minha médica ela também ficou impressionada e me encaminhou para outra médica especializada em casos delicados como o meu, elas foram anjos que Deus colocou no nosso caminho. Segui fazendo exatamente tudo que era possível para preservar a saúde da nossa tão amada filha Maria Esperança, quem escolheu o nome foi meu companheiro, as chances dela não sobreviver eram grandes, além da Ectopia Cordis também foi diagnosticada uma transposição dos grandes vasos do coração, aonde deveria passar o sangue arterial estava passando o venoso e aonde deveria passar o venoso estava passando o arterial, mas existia uma esperança dela resistir e nos apegamos  a ela com todas as forças, nunca desistimos dela.
  Em um exame de rotina, com 31 semanas de gestação, a médica não conseguiu ouvir mais os batimentos cardíacos e diagnosticou o óbito da nossa florzinha. Como doeu escutar que nossa filha não tinha resistido, chorei, me perguntei muitas vezes o porque disso tudo acontecer com a gente, minha vontade era de morrer só para parar de sentir tamanha dor, eu passava as mãos na minha barriga e chorava pois não iria ver minha filha crescer e brincar pela casa como sonhávamos. Fui internada imediatamente e depois de 41 horas de trabalho de parto normal induzido minha Maria Esperança nasceu, aquele silêncio me cortava o peito, me perguntaram se queria ver minha filha e eu disse sim, queria muito me despedir dela, quando vi aquele bebezinho tão pequeno, tão delicado e que lutou tanto para sobreviver, eu, outra vez, chorei, passei a mão no rostinho e na cabeça dela, não consegui ver o coraçãozinho dela fora do tórax e nem segurar ela no colo, mas esse momento de despedida foi muito importante para mim. Também foi muito importante meu companheiro está ao meu lado em todos os momentos mas principalmente durante o parto, eu sei que ele sofreu muito mas juntos nos consolamos.
  Quando voltei para casa senti um vazio enorme, o corpo dolorido e ver meus seios vazando leite me deixaram muito deprimida, aquele leite era para minha Maria Esperança e ela não estava comigo para ser alimentada, eu sonhava com o momento da amamentação, pois acho um ato de amor e de cumplicidade entre mãe e filho. Ainda tinha que ir ao cemitério acabar de me despedir da minha filha, nós oramos e batizamos ela, foi uma despedida muito triste mas tenho certeza que ela, aonde quer que esteja, sentiu todo o nosso amor e carinho.

  Quando precisei voltar ao hospital para os exames após o período de resguardo foi muito doloroso, ver todas aquelas mulheres grávidas ou com seus bebês recém nascidos nos braços me fez pensar em como seria se tudo tivesse ocorrido bem, fiquei triste e quando estava quase chorando uma enfermeira que sabia do meu caso veio conversar comigo e me disse palavras tão bonitas, foi muito sensível da parte dela conversar comigo.

 Estamos tentando continuar com nossas vidas mas não é fácil, tem dias que estamos melhores e tem dias que são péssimos, são os dias que a saudade é mais forte. Não consegui doar as roupinhas da Maria Esperança, guardei todas. As roupas que eu usava quando estava grávida eu doei, me faziam lembrar de como ficava linda nelas com a minha barriguinha e sempre chorava quando as via ou tentava vestir elas novamente.
  Nunca mais seremos os mesmos, vamos ter que nos acostumarmos a sentir saudades todos os dias e a caminhar com esse vazio gigantesco no peito pelo resto de nossas vidas, vazio de um sonho que foi vivido pela metade.
  Após quase 3 meses da minha perda, apesar de toda a dor e dos momentos de revolta, hoje eu consigo agradecer por ter tido o privilégio de carregar no meu ventre uma criança tão especial e que me fez muito feliz nas 31 semanas que ficou comigo, agradeço a Maria Esperança por ter me transformado em uma pessoa melhor. Ainda choro todos os dias, mas o choro agora é de saudade e não mais de dor e revolta.
Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s