A vida é a arte do encontro

Érica Quintans

      Já dizia Vinicius de Moraes: “A vida é arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. Mães, pais, irmãos, amigos e familiares que se desencontraram de seus bebês, são atravessados, marcados por esta perda. Mesmo não sendo possível voltar a ser quem se era, a construção de um novo eu é possível.

   Esta ressignificação é o que vemos acontecer diante de nossos olhos nos encontros presenciais do grupo Do Luto a Luta: apoio a perda gestacional e neonatal. Acompanhamos pessoas que passaram por este drama há 2 anos, 2 meses e até 20 anos atrás. O que trazem em comum, além do amor por seus bebês, é a capacidade corajosa de enfrentar seus sentimentos, expor o que sentem e apoiar uns aos outros.

     O luto é um processo que não tem prazo de validade, que não acaba, pois sempre estará presente na vida daqueles que sofreram a ruptura de um vínculo com uma pessoa/ animal/situação, que era significativa e importante. É um processo que tem altos e baixos, momentos de tristeza e dor, mas também momentos de alegria e criatividade.

    Acompanhamos este vai e vem com os membros de nosso grupo, com a certeza de sempre oferecer um espaço de acolhimento, cuidado e oportunidade de falar do seu bebê que se foi. Podemos garantir que estaremos juntos, amparando e fazendo um carinho nessa dor tão dilacerante. Dói muito. Mas uma hora melhora. Aquele buraco do sofrimento vai ganhando um novo colorido pintado a muitas mãos.

       Diante de um luto tão silenciado e não reconhecido, poder ter um espaço de pessoas que vivenciaram o mesmo tipo de perda é muito importante. Encontramos ali um círculo de colegas que te entendem e conhecem mais ou menos o que você está sentindo, afinal cada um sente a sua maneira. Ali ninguém te dirá que logo você terá outro filho, ou que não foi nada, que você não teve tempo de se vincular.

       O nosso grupo entende que o amor por um bebê é alimentado desde a infância, desde quando brincamos com as bonecas, de casinha ou planejamos uma família. Quando o desejo pela gravidez se aproxima, esse ideal de bebê fica ainda mais forte. Pensamos um nome para dar, fazemos planos, desejamos uma nova vida a partir dali. Quando se perde um bebê é todo esse mundo idealizado que se vai. Geralmente a gravidez é compartilhada com muitas pessoas, mas a perda, pelo contrário, é solitária. Por isso, o grupo pode ajudar a ser um pilar em sua nova construção.

        Há quem pense que frequentar o grupo é fazer um culto a dor ou enaltecer a tristeza. Na verdade, a gente só consegue elaborar a perda quando a gente lida com ela. Fingir que não está acontecendo causa muitos danos emocionais, psicológicos e até físicos. O que acontece é que gente só encontra uma saída quando a gente pensa e fala sobre ela. O grupo é um potente espaço criativo para buscar novas formas de ser.

         Se você ficou curioso(a) entra em contato com a gente e participe da próxima reunião, será um prazer ter você conosco!

 

Érica Quintans
Psicóloga clínica e mestranda da PUC-Rio
Email: ericatq.psi@gmail.com
Facebook: https://www.facebook.com/psicologaericaquintans

 

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