Um amor distante

Sempre tive o sonho de ser mãe, sempre me imaginei com no mínimo três filhos no banco de trás do carro. E quando conheci meu companheiro, senti que teria meus filhos com ele. Em abril de 2015, acordei numa manhã de domingo me sentindo diferente, senti que algo estava “errado” com meu corpo. O dia foi passando, e veio uma sensação muito forte, de que poderia estar grávida. Dito e feito, neste dia fiz dois exames de farmácia, todos dando doisrisquinhos. Não bastando na manhã do dia seguinte, fiz com a primeira urina do dia, e de novo dois risquinhos. Fui então ao laboratório antes de ir trabalhar fazer o exame de sangue, e o resultado sairia ao meio dia. Foi a manhã mais longa de trabalho que já tive. Enfim, chegou o horário que o resultado estaria disponível no site do laboratório, tremia do pé até a cabeça, e foi aí que vi o POSITIVO mais profundo que já havia visto. Os dias foram passando, e os medos aparecendo. Eu havia mudado de emprego fazia quatro meses, eu e meu noivo estávamos morando juntos a pouco tempo, estávamos nos redescobrindo como casal, e agora tínhamos que lidar com a maternidade e a paternidade. Turbilhões de sentimentos começaram a surgir, e com ele um pequeno sangramento. Fomos logo à médica, e para nosso alívio e emoção, conseguimos ouvir o coraçãozinho daquele serzinho que estava crescendo ali dentro. Foi neste dia que a ficha realmente caiu, no ventre nascia um novo coração. Depois foi a descoberta do sexo, a maioria das pessoas falavam que era uma menina, mas eu sentia que era um lindo menino. E de fato era, o nosso Vicente estava a caminho. Quando estava tudo certinho, começaram a surgir meus enjoos, nossa como enjoei. Foram cinco meses muito complicados. O mal estar tomava conta de mim, o dia todo. Eu tentava ficar feliz com a minha gravidez, mas infelizmente não conseguia. Quantas vezes me peguei, sentada no banheiro chorando, pedindo para que aquilo tudo terminasse. Sim, me vi egoísta, e me perguntando por que tinha engravidado. Nesses momentos, não sei o que seria de mim sem o meu noivo, ele sempre ali do lado, tentando me acalmar e me passar todo amor, que eu não estava conseguindo passar para o Vicente. Depois do quinto mês, veio o alivio, os enjoos foram passando, a barriga crescendo, e finalmente comecei a tentar estabelecer um vínculo com meu filho. Mas tinha uma força que era maior que a minha vontade, nós dois não conseguíamos nos vincular de verdade. Sentia muito amor por ele, mas ao mesmo tempo era um amor distante. O pré-natal foi passando, o segundo morfológico também, e sempre saímos com a frase da médica ecoando na cabeça: O Vicente está nota 10, mãe e pai”. Quase no final da minha gestação, por uma benção divina, resolvemos trocar de médica. Essa nova médica, pediu alguns exames extras, que a outra nunca havia pedido ou comentado. Um desses exames era o ecocardiogramafetal. Fui confiante fazer o tal do ecocardiogramafetal, sempre escutava que o Vicente estava nota dez, que nunca passou pela minha cabeça que ele poderia ter alguma coisa. Foi a primeira vez que fomos eu e o Vicente, fazer exame, estava tão certa que estaria tudo bem, que disse ao meu noivo que não precisava ir junto. Nesse dia meu chão se abriu, o Vicente não estava nota dez, ele tinha uma cardiopatia grave, e teria que passar por cirurgia logo depois que nascesse. Recebi naquele dia a pior notícia da minha vida. Começamos uma corrida contra o tempo. Eu estava com 33 semanas de gestação, e teríamos que encontrar uma equipe especializada. De um dia para o outro precisávamos de cardiopediatra, cirurgião, obstetra, pediatra de UTI neo, e assim por diante. Eu estava exausta, mas meu noivo sempre confiante, pesquisando, estudando sobre a cardiopatia, e entrando em redes e grupos de apoio. Foi assim, que encontramos uma equipe em Blumenau, que nos acolheu de forma brilhante. Era tudo que precisávamos naquele momento, acolhimento e empatia. No fundo nós dois sabíamos, que poderia não dar nada certo, que poderíamos sim, perder o Vicente. Mas continuamos seguindo, da melhor forma, mais cúmplices ainda um do outro. O Vicente estava nos unindo ainda mais como casal. Mas aquele sentimento de amor distante, com o Vicente, continuava brotando no meu coração. Que sensação maluca, eu sempre quis ser mãe, e de repente eu não estava conseguindo criar vínculo com o meu filho. Chegou o tão sonhado dia do parto, iríamos conhecer nosso menino, e também sabíamos que quando ele saísse da minha barriga, as coisas seriam ainda bem difíceis. Mesmo com o medo que tomava conta de mim e do meu noivo, fomos tão seguros e felizes para o centro cirúrgico, que conseguimos ter o momento mais mágico que já tivemos até hoje, com tranquilidade, e aceitando tudo o que o Vicente estava nos trazendo. Foi uma explosão de amor que aconteceu naquele momento, o choro forte do Vicente nos deu ainda mais forças. Voltei da recuperação era quase meia noite, e quando cheguei no quarto meu noivo estava me esperando, para contar como o Vicente estava, e me mostrar as fotos que ele havia tirado na UTI neo. Sorrimos muito, ele era lindo. Logo pela manhã acordei e quis descer para vê-lo. Eu e meu noivo, olhávamos para ele, e comentávamos como ele era perfeito, e que estava tão sereno, parecendo não sentir dor. Era a pele mais macia que já acariciei, e um dos bebês mais lindos que já tinha visto. No final desta mesma manhã, recebemos a notícia de que a cirurgia iria ser feita naquela tarde mesmo, pois a saturação do nosso menino estava muito baixa. Foi a tarde mais longa das nossas vidas. O Vicente ficou 4 horas em cirurgia. E no final, com um aperto de mão que o médico deu no meu noivo, veio a melhor notícia: Deu certo!!! Nisso, o Vicente estava saindo do centro cirúrgico, voltando para a UTI, e ainda conseguimos dar um beijo na testa dele. Foi a melhor comemoração que tive até hoje. Mas nossa comemoração não durou muito, duas horas depois, estávamos recebendo a pior notícia, o Vicente não havia resistido. Vivemos sentimentos muitos extremos em tão pouco tempo. Me vi em questão de horas comemorando a vida, e chorando pela morte. Um dia depois, eu ganhei alta, e saímos do hospital sem o nosso Vicente. Passavam tantas coisas pela minha cabeça. Mas uma voz gritava dentro de mim, de que nós tínhamos feito tudo que esteve ao nosso alcance, e isso me acalmava. Hoje quase três meses depois, eu não sou a mesma mulher, aprendi e cresço tanto com isso todos os dias, que hoje me enxergo tão mais forte, e tão mais poderosa.

Obrigada meu Vicente, por me dar esse empoderamento, e por me preparar desde o início, você já sabia que partiria em breve. Tu sempre me destes sinais que nosso amor, seria mesmo distante, como sempre senti.

Depoimento enviado pela mãe Manuela Zubaran Santos

20/02/2015

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Um comentário em “Um amor distante

  1. Exatamente como me sentia em relação a gravidez da minha primeira filha. Também achava q era menino, apenas no dia de ir fazer o morfológico sonhei q era menina, o q se confirmou. Também sentia, uma voz dentro de mim dizendo que eu não iria cria-lá, que ela não me pertencia. Até eu mesma achava q estava louca de pensar isso. E meu médico, renomado na minha cidade, me fizendo q estava tudo certo, perfeito com nossa Rafaela. Então com 32 semanas senti minga barriga murchar, fui para o hospital e não tinha batimentos. Fui ao fundo do poço… isso já fazem 5 anos, hoje entendo que talvez uma força superior me preparava para a minha batalha. Mas mesmo assim, ainda sofro pelo q deixar de viver e o tanto q me privei de ama-la. Depois do ocorrido fui em busca de respostas, fiquei sabendo q minha filha estava com restrição de crescimento desde o 5 mês. E o médico, não percebeu. Hoje tenho outra filha, Gabriela, que me devolveu a luz. E estranhamente, mesmo com todo tratamento, nessa gravidez sempre me acompanhou a certeza de que iria dar tudo certo. Como se eu estivesse empoderada, e q nada me abalaria. Dia desses contarei minha história… um abraço pra vc querida, e tenha certeza q nada nessa vida é em vão. Minha história é uma sucessão de coisas se encaixando e gente certa no meu caminho. Foi na troca de experiências com outras mães órfãs, que encontrei força e coragem para me reerguer.

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