Entrevista com a advogada Maíra Fernandes – Equipe Do Luto à Luta

– Você acredita que estamos fazendo um trabalho de educação para a morte? De que forma?
Sim, acredito. É preciso falar sobre o luto, sobre essa perda tão difícil que é a perda gestacional e/ou neonatal. Ao darmos visibilidade ao tema, mostramos às famílias enlutadas que que elas não estão sós. Além disso, informamos profissionais de saúde sobre essa dolorosa perda, fazendo com que ela deixe de ser silenciosa e silenciada e orientando-os sobre como proceder: como dar a notícia, como acolher as mães e os pais do bebê.
– Qual o seu maior interesse e motivação no nosso projeto?

Perdi meu primeiro filho no parto, em 2015. Nunca imaginei sentir uma dor tão grande, tão dilacerante. Foi uma gravidez muito desejada e festejada. Nos dias que se seguiram à perda, achei que era a única no mundo a passar por aquilo, até ser apresentada ao Do Luto à Luta. Quando vi que uma a cada cinco mulheres sofrem perda gestacional eu me perguntei: se isso é tão comum, muito mais do que se imagina, por quê ninguém fala disso? É uma dor muda. Passamos por ela de modo solitário, com apoio de familiares e amigos, claro, mas normalmente em um silêncio profundo. Parece que ninguém quer falar sobre isso, mas é preciso! Somente a divulgação do tema poderá mostrar que isso existe e ajudar a mudar o tratamento dado pelos profissionais de saúde nos hospitais e assegurar os direitos necessários às mulheres, inclusive os trabalhistas (pouco se sabe sobre as licenças nesses casos).

Depois de ouvir tantas histórias, percebi que o tratamento humanizado que recebi no hospital após a perda foi um privilegio. Infelizmente, a maior parte das mulheres permanece na mesma ala da maternidade, ouve choros de bebês nascendo enquanto vivem sua dor. Isso é uma tortura!! Mudar essa realidade, dar voz às mulheres e visibilidade ao tema é o que me motiva a estar no grupo. Além disso, no grupo eu me sinto acolhida e o apoio de todas torna menos difícil a dor da perda. O Grupo me move e me ajuda a fica de pé.

– De que forma acredita que está beneficiando e sendo beneficiada pelo projeto?
Como advogada e militante pelos Direitos Humanos e, especialmente, pelos Direitos das Mulheres, um mês após minha perda tive a ideia de organizar uma audiência pública sobre o tema. Foi excelente levar a ideia adiante com o apoio e a parceria do Do Luto à Luta. Foi minha primeira atuação como integrante do grupo e, para mim, um grande marco. Os deputados Marcelo Freixo e Enfermeira Rejane foram muito sensíveis à pauta e a audiência foi realizada no Dia Internacional de Visibilidade à Perda Gestacional (15/10). Na mesma data, foi apresentada uma Proposta de Emenda Constitucional sobre o tema e, em dezembro, ela já estava aprovada, garantindo licença maternidade e paternidade aos servidores do estado mesmo em caso de perda gestacional. Acho que posso beneficiar o grupo com essa minha militância pelos direitos das mulheres e os conhecimentos jurídicos. Sonho ver aprovada uma Norma Tecnica do Ministerio da Saúde sobre como os profissionais de saúde devem agir diante da perda gestacional. É surpreendente que isso não exista ainda. Estamos trabalhando também para organizar uma cartilha voltada aos profissionais de saúde, que reproduza as recomendações da Organização Mundial de Saúde. Ao trabalhar por essas pautas sei que posso ajudar milhares de mulheres, mas na realidade também ajudo a mim mesma. É uma forma de ressignificar a minha dor e homenagear meu filho Antonio Henrique.
De que forma acredita que a nossa parceria pode contribuir para um maior cuidado com a perda gestacional?
Como dito acima: através da realização da audiência pública na  Alerj conseguimos mudar a Constituição do Estado do Rio de Janeiro para reconhecer a licença maternidade e paternidade mesmo em caso de perda gestacional. Isso não é pouca coisa, considerando-se que isso normalmente é um processo super demorado. Ademais, por conta da audiência, participamos de programas de televisão e radio, concedemos entrevistas que deram ainda mais visibilidade ao tema e ao Do Luto à Luta, fazendo com que fossemos procuradas por mais pessoas que sofreram essa mesma dor. Quando exibimos o filme O Segundo Sol também nos aproximamos de mais pessoas que passaram por isso. Forma-se, afinal, uma rede de energia muito positiva e muito forte.
– O que diria aos pais e familiares que acabaram de vivenciar a perda gestacional?
Eu diria que eles não estão sós. E que, embora a dor seja dilacerante e eterna, é possível ressignificá-la para conseguir seguir em frente.  É preciso viver e respeitar o processo de luto. E, como me disse a psicologa Cecilia Rezende, não há hierarquia nessas dores. A intensidade da dor é a intensidade do amor que se sentia. É preciso respeitá-la.
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