Gabriel: alegria da vida à Luta

Essa é uma das poucas imagens que tenho do meu filho que se chamaria Gabriel não pude o registrar com o nome que escolhemos, pois, natimorto não tem o direito de ter registro com nome e sobrenome.

Em junho de 2013 descobri que estava grávida!! Já com 42 anos! Seria meu segundo filho, porém o primeiro do meu marido! Foi um susto, pois estava tratando uma menopausa precoce, mas ao mesmo tempo foi uma notícia muito boa!!

Passado o susto da notícia, iniciei meu pré-natal normalmente, nossa preocupação era com a formação do bebê pois na minha idade problemas podem surgir. Fiz o primeiro ultrassom, e estava tudo bem como meu bebe! Quando estava perto do 4º mês, em 22/10, fui fazer outro ultrassom na curiosidade de saber o sexo do bebe, então fui na clínica de um convênio médico muito utilizado em Santa Catarina fazer o ultrassom, eu e meu marido entramos ansiosos para saber se estava tudo nas medidas corretas principalmente a translucência nucal e claro, queríamos saber o sexo do nosso bebê!

O médico que nos atendeu com todo mal humor do mundo conseguiu me dirigir 2 frases “Porque uma mulher na sua idade vai arrumar filho? O que deu em você?” e outra pérola na saída do exame “Boa Sorte”. Ele não quis nos dizer o sexo do bebê, disse que não dava pra ver, e soltou um “Boa Sorte”, nada me tira da cabeça que ali, naquele momento ele já havia diagnosticado o problema cardíaco que meu bebezinho tinha, porém preferiu se omitir.

Não satisfeita, marquei outro ultrassom em outra clínica, agora particular 3 dias depois em 25/10. Queria muito saber o sexo do meu bebê! Não tinha a mínima ideia que ali, teria início uma série de diagnósticos ruins e que não teria meu filho nos braços. O médico me confirmou que era um menino, chorei na mesa do exame de alegria, perguntei para ele

várias vezes se estava tudo bem, ele disse que sim, porém me pediu para levar o resultado do exame imediatamente para minha obstetra.

Entrei no carro e a primeira coisa que fiz foi abrir o exame para ler o diagnóstico, fiquei tonta, minha visão escureceu, tive que respirar fundo e me concentrar para ler novamente.

Liguei o carro e fui direto para o consultório da minha médica ela me atendeu na hora leu e disse que seria sincera, que raramente crianças com esse diagnóstico sobreviveriam, que se chegasse ao nono mês precisaria de cuidados especiais e teria que marcar para nascer em um hospital que tivesse Cardiologia Neonatal ou algo assim, eu já em prantos ela me pediu pra me conformar e aproveitou para me avisar que estava mudando de cidade que eu teria que arrumar outro médico para me acompanhar que ela iria me passar um e-mail com alguns nomes. Eu estava tão assustada que não processei a falta de tato da médica e falta de sensibilidade com a forma que me passou a notícia.

Depois disso fui procurar algum especialista que pudesse me auxiliar pois não iria desistir ali, então fomos para Blumenau onde fui muito bem tratada em todos os momentos, sempre vou agradecer e muito a todos os médicos que atenderam em Blumenau, são um exemplo de ética com bom senso para tratar de pacientes em situação tão delicada quanto a minha.

Fiz outro exame para confirmação do diagnóstico, e veio outra situação que não conhecíamos até então além da Cardiopatia existia a Hipoplasia Pulmonar.

Então fui indicada a passar por outro médico também em Blumenau e especialista em desenvolvimento fetal, um médico fantástico que me tratou muito bem que lutou comigo e estudou todas as possibilidades possíveis para salvarmos o Gabriel.

E o tempo foi passando, o Gabriel foi crescendo ele mexia na minha barriga, eu cantava, colocava músicas para ele ouvir, queria que ele soubesse das coisas que eu gostava, meu marido sempre presente, sempre me apoiando em tudo e sofrendo calado, eu sabia que ele por dentro estava enlouquecendo, mas ele me poupava de dividir a dor dele comigo, pois sabia que a minha dor já estava insuportável, mas não deixamos de lutar.

Procuramos pela internet, pesquisamos tudo sobre a cardiopatia e achamos a AACC – Pequenos Corações, uma ong que auxilia mães no Brasil todo que tem filhos cardiopatas, nunca as conheci pessoalmente, mas até hoje elas me ajudam a entender o que aconteceu e a minimizar a minha dor do luto. Passei os exames para elas, que iriam encaminhar para os médicos que trabalham com elas para avaliarem a situação do Gabriel, logo me retornaram me confortando e confirmando a situação grave que me encontrava. Muito obrigada Larissa dos Pequenos Corações, cada doce palavra sua nos e-mails que trocamos me aliviava uma dor enorme no coração.

Em Dezembro de 2013 fomos para São Paulo, por indicação do meu médico de Blumenau que estava fazendo uma pós graduação lá, ele nos convidou para irmos até o Instituto para que a junta de médicos lá presente estudassem o meu caso e avaliassem se conseguiríamos fazer uma cirurgia ainda com o bebê no meu útero. Fomos recebidos pelo meu médico que nos apresentou como seria a avaliação e comentou que havia ali uma especialista em cardiologia pediátrica e que ninguém melhor do que ela para diagnosticar e passar as possibilidades do que poderíamos fazer.

 

Nunca vou me esquecer, eu deitada na frente de uns 20 médicos ou mais, meu marido sentado na primeira fila o meu médico em pé ao meu lado junto com a médica que iria me avaliar, então eles ligaram um telão e ela iniciou um ultrassom. Ela segurava na minha mão, me pedia desculpas pelo que iria falar mas deixou claro que não havia o que ser feito para salvar meu filho, ali todas as esperanças se acabariam, não havia mais o que ser feito. Ficou claro que, o Gabriel viria a óbito assim que cortassem o cordão umbilical. Ele não tinha desenvolvido o pulmão e o coração dele estava muito grande. A dor, angústia e falta de ar que senti naquele momento não sei como descrever em palavras.

Fomos informados que poderíamos pedir judicialmente a interrupção da gravidez, nos passaram diagnósticos, exames, tudo que eu precisaria para entrar na justiça para aliviar a minha dor e terminar logo com a situação. Mas era dezembro, fórum em recesso e não havia motivo para isso, optamos por deixar que nosso filho ficasse conosco até a hora certa, a hora dele.

Então chegaram as festas de final de ano, minha barriga já estava grandinha fomos à praia e resolvi entrar no mar para mostrar de alguma forma para meu bebe como era entrar no mar, o balanço das ondas, tudo que eu vivenciava, depois do diagnóstico final, eu queria vivenciar em dobro na esperança que meu filho tivesse a sensação que eu estava tendo, então ouvia música o tempo todo, as que eu gosto para que ele pudesse conhece-las também. Dirigia pelas estradas curtindo as paisagens, o mar, as matas que tem por aqui nos caminhos que normalmente fazia entre a cidade que morava e Blumenau, muitas vezes fiz sozinha esse trajeto, por pura opção mesmo, só para ter meu momento com meu filhinho. Tudo isso, era feito no mais absoluto silêncio. Não poderia falar que estava querendo fazer as coisas para mostrar para o meu filho, era um assunto somente meu e dele. As pessoas que sabiam da nossa situação fingiam não saber, não há muito o que ser dito numa situação dessas, então acho que eu preferia mesmo o silêncio delas.

Em 08/02 a bolsa estourou e fui para o hospital, fiquei ainda algumas horas esperando para fazer a cesárea, a enfermeira aparecia de tempo em tempo para ouvir os batimentos cardíacos do meu bebê, ele ainda estava lá, eu fiquei com outras 4 futuras mamães, que estavam felizes com seus enxovais prontos e familiares esperando para conhecer o bebe que nasceria, eu fiquei quieta, não poderia quebrar a onda de felicidade delas por causa da minha tristeza profunda. Então fiquei quieta alisando a minha barriga, pedindo desculpas para o Gabriel por não poder ficar mais com ele e chorando baixinho. Somente uma enfermeira que estava lá sabia o que aconteceria comigo, e passava as vezes na minha maca e me acariciava o cabelo, e falava baixinho, “força, logo tudo vai passar”. Não pude ficar com meu marido, ou com ninguém da família, somente quando entrei no centro cirúrgico é que meu marido veio ficar comigo e ver o “não nascimento” do nosso filho. Eu estava anestesiada, só me lembro do susto que a enfermeira tomou quando o médico tirou o Gabriel da minha barriga, e de vê-la saindo com ele no colo, eu tenho a impressão que vi o pezinho dele.

Meu filho se foi há mais de um ano, mas até hoje não consigo pensar nele sem sentir a mesma dor e pânico que senti quando me foi dado o diagnostico final, a falta de esperança é algo que nos anestesia e nos incapacita. Escrevo para dividir a minha dor e deixar claro que o luto gestacional não é exclusividade nossa, muitos passam por essa dor sem se manifestar porque a nossa sociedade não compreende o significado de perder um filho que nunca se pode ver o rostinho. Eu não pude ver meu filho, hoje me arrependo muito por não ter insistido mais para poder vê-lo.

Eu tive você Gabriel, e nunca te tive nos braços ou nunca te beijei a face. Te ter e te perder assim foi uma das lições mais difíceis que tive até hoje na vida. Mas sempre vamos te amar esteja onde estiver, você é sim o Gabriel Oliveira da Silva, mesmo a sociedade nos proibindo de registrá-lo, mesmo nos proibindo de falar da falta que você nos faz, você sempre será lembrado por nós.

Depoimento enviado pela mãe Patrícia Lamac

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3 comentários em “Gabriel: alegria da vida à Luta

  1. Patrícia sinto muito pela sua perda, que assim como a minha foi dura e traumatizante. Mais todos as mães que perdem seus filhos devem saber alguns pontos: 1) Tem direito de escolher se querem indução ou cesariana caso a situação permita; 2) Que tem direito de ficar em um quarto isolado antes e depois do parto para que seja resguardado o seu psicológico da mãe ; 3) Que podem registrar o seu filho caso já estejam formados, a minha foi registrada, com nome que queríamos: Maithe… e o meu sobrenome do e pai. Somos descriminadas, mais precisamos ter forças para lutar por nossos direitos.

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