Empoderamento diante da Violência Obstétrica

Ola querida, depois de saber da tragedia que uma mãe passou no parto pélvico de seu bebê que teve a cabeça deslocada/arrancada e morreu num ato estupido do Doutor. Resolvi me manifestar, pq eu e muitas mulheres aqui da região sofremos abusos, violência e maus tratos por parte desse medico entre outros, porem por medo do julgamento e preconceito e de todo o tabu que é passar por isso, muitas vezes nos calamos nessa dor silenciosa.

Mas hoje finalmente, me sinto forte, confiante e com coragem de aqui me expor e relatar a necessidade de reavaliação na medicina, principalmente no parto, pois é muito despreparo e falta de respeito, falta de paciência e amor nesse momento tão único e sagrado. Parece que os médicos só sabem fazer cirurgia e não sabem mais lidar com as pessoas. Falta esse cuidado digno com a vida, pq eles não são Deus, estão apenas aqui para auxiliar com consciência e conhecimento a dar valor a vida, para zelar pela saúde e servir com ternura, gentileza, respeito, porem muitas vezes não é o q acontece, infelizmente.

Deixo minha denuncia de violência obstétrica, dos médicos. Por violencia, por negligência entre outras atitudes equivocadas que levaram minha filha à morte e quase eu também.

Ha 2 anos atrás, numa segunda-feira, 26/agosto/2013, fui internada no hospital, numa emergência em virtude de uma pressão que subitamente foi a 22×11, estava com 36 semanas, fui acolhida pelo Doutor, que me medicou e a pressão ficou estável, porem fui recomendada a ficar em observação no hospital para melhor avaliação através de diversos exames. E assim cada dia um novo médico de plantão, de segunda a quinta-feira, todos os médicos eram educados e gentis, conversavam comigo me explicando o resultado dos exames, que estava sendo analisada e era preciso esperar para ter certeza do melhor procedimento. Ultrassons e cardiotocos confirmaram que minha filha estava bem e a salvo.

Na quinta-feira, os médicos me disseram que sábado faria novos exames e que me seria dito o que iria ser feito em decorrência do que viesse no resultado. Ate então, estava tranquila e me sentia segura. Aguardando o diagnostico.

Porem, no dia seguinte, outro médico de plantão, entrou no quarto que eu dividia com mais 3 gestantes, causando terror e pânico com sua atitude rude, agressiva e muito nervoso. Ele chegou pra fazer o exame de toque na primeira gestante a ser atendida naquele quarto, era uma adolescente e estava acompanhada, porem ela gritou de dor pela forma como o doutor a abordou no toque, o medico foi muito estupido com ela, sem o minimo de cuidado no tratar com aquele ser humano. Ficamos todas muito assustadas e com medo dele.

Ele saiu do quarto pedindo q a pessoa da família desse um jeito na menina pra ele fazer o exame, mas ficamos atônitas todas com ela aquela cena grosseira. Depois ele voltou, a menina desesperada por ele não ter a minima paciência e nem carinho pra falar. Foi horrível! Ele desistiu dela e passou pra olhar cada outra gestante, eu fui a ultima. Com uma prancheta nas mãos, sem mal falar conosco, apenas escrevendo no papel sem mais se comunicar com nenhuma de nós. Situação muito desconfortável foi a presença dele.

Qdo saiu do quarto foi um alívio, pq sentimos q não foi um médico mas um monstro q atuou ali. E depois qdo veio a copeira, disse q eu e outra gestante, não íamos comer pq íamos pra cesárea. Como assim? Sem nem conversar conosco, nem explicar nada, sem perguntar sobre nosso acompanhente para este momento? Qta frieza? Nenhum esclarecimento e indo totalmente ao contrario do q os médicos do dia anterior disseram. Isso me deixou muito insegura, confusa e tive medo desse médico, não pude confiar nada nele com essa atitude.

Então, ali totalmente vulneráveis a tudo, sem saber o fazer e o q era certo, por me perceber nas maos de um medico que foi muito insensível e rude, ficamos todas com medo, e tempo depois sem nem mal falar comigo e outra gestante tambem num quadro similar ao meu, quis nos levar pra cesárea, totalmente contra o que os médicos do dia anterior que tinha dito para aguardar os resultados dos exames de sábado e ver como o corpo reagia à medicações.

Confesso que eu e a outra gestante tivemos muito medo de ir para uma cirurgia com um médico como ele. Eu tive medo de morrer na mesa de parto numa frequência tao ruim desse medico, tive medo desses maus tratos, muita coisa passou na minha cabeça, estava insegura e acuada sem informação e cuidado desse medico, então, eu pedi ajuda para a enfermeira chefe do dia, se era seguro esperar o médico do outro plantão, não ouvi mesmo boas recomendações nem mesmo por parte da equipe. Então, o médico  voltou ao quarto e nos ameaçou, qdo negamos ir ao procedimento com ele, foi horrível passar por isso num momento tão frágil e vulnerável. Todas nós viamos um monstro não um medico, ele vociferou conosco e saiu muito nervoso. E a outra gestante também de nervoso entrou em trabalho de parto antes da hora, ao longo do dia, o Dr. nem mais apareceu, qdo ele estava jantando, ela pariu no quarto junto comigo e as outras gestantes, sendo assistida pela maravilhosa e doce enfermeira obstétrica que estava de plantão. É uma pena que esqueci o nome dela. Correu tudo bem com essa mãe e filha.

No dia seguinte, sabado, 31/agosto/2013, Dr.  voltou ao plantão e depois de ver os resultados dos exames, conversou comigo, e disse que seria mesmo melhor proceder o parto, pq senão eu poderia estar em risco, mas que minha filha estava ótima, minha pressão estava estável por causa dos remedios. Nesse medico eu senti conforto e confiança, ele disse tentarmos o parto induzido de forma mais natural e menos arriscado para um caso de pre-eclampsia, mas que em qualquer emergência ainda poderia ser uma cesárea. Eu estava entregue ao que esse gentil médico me guiava. E assim as 16h me deram algo na veia para induzir, depois o médico veio e me esclareceu como seria todo o procedimento, que durante a madrugada ainda receberia outra dose e que provavelmente ate o meio-dia de domingo, eu estaria com ela em meus braços.

E assim, vivi as contrações que aumentavam suave e gradativamente ao longo da noite, a bolsa rompeu por volta de umas quase 19h. Mas durante a madrugada, meu companheiro

 foi chamar a enfermeira assistente para dar a tal segunda dose, porem ela desapareceu, e esqueceu de nós (?) enfim, muitas horas depois, a enfermeira chefe voltou e perguntou pq não tinha sido dado o soro de ocitocina, contamos q pedimos pra outra enfermeira, mas q ela não deu e sumiu. Nesse momento, meu coração sentiu algo estranho num comentário dela com outra enfermeira, como assim? Fui negligenciada e meu parto tinha parado, qdo ela colocou esse soro mais injeção começou novamente com força total, era como se tivesse parado uma maratona no inicio e re começasse do fim, foI estranho, mas eu tava ali entregue a dor de cada contração e só pensava no amor por minha filha. Eu nem imagina quanto dor cada contração de um parto induzido as 37 semanas. Foi intenso, forte…

Muita gente entrava e saia do quarto, eu me senti muito incomodada e desconfortável por essa falta de tato, eu me sentia muito invadida, sem espaço para relaxar e desfrutar de um momento tão único e sagrado que é se preparar para o nascer do bem mais precioso que tanto esperava por meses. O médico qdo vinha me ver me tranquilizava e dizia que estava tudo bem, me dizia para continuar a respirar. Ele e algumas enfermeiras traziam uma vibracao mais amena e terna, ele foi um fofo, ate ficou mais um tempao comigo depois do seu plantão, mas teve que ir, e foi daí que tudo mudou da água pro vinho, foi tenso. Com o médico senti um calvário, novas ameaças e jeito rude, então, chegou uma hora que me senti uma leoa e fui me proteger debaixo do chuveiro, pra ficar comigo e respirar, para ficar tranquila e viver o momento. Vez ou outra vinham fazer cardiotoco e ouvir coração dela, estava tudo bem.

Mas um momento veio novamente esse medico sem conversar direito, apenas lembro dele rude, gritando q eu ia pra cesárea e ate meu marido e uma moca que me acompanhava discutiu com ele por chegar desse jeito impetuoso, eu pedi ate para pararem de brigar ali, de me deixarem mais tranquila e em paz, enfim, meu parto parecia um campo de batalha com essa troca de plantão. Com medo dele, neguei que ele fizesse o exame de toque desse jeito em mim, quem fez foi a enfermeira que era mais delicada, e ela relatou que estava com dilatação total! Mais um cardiotoco e a neném continuava bem e normal. Me senti tao feliz!!! Ate pude me tocar e perceber os cabelinhos dela. Foi divino! Senti muita alegria e êxtase, porque estávamos na reta final. Enquanto eu sentia as contrações me coloquei de cócoras na cama do quarto já me preparando pro expulsivo que se aproximava.

Então o médico resolveu me transferir do quarto para a sala de parto, mesmo contra a minha vontade, porque eu já estava ali pronta, era só mais umas contrações para ela nascer. Em vão eu pedi para não mexer em mim, porque nessa hora nós mulheres não temos sequer permissão de acolher o que o nosso corpo mostra, nem somos ouvidas nesse momento que nosso corpo dá o sinal?

Foi horrível ser forçada a ir pra uma cadeira de rodas e sentir as contrações sem poder nada fazer para dar vazão ao dar à luz, querer ficar de cócoras sentindo o corpo dela querer

 nascer e pessoas me chamando de louca e fechando minhas pernas (???) dizendo que ia cair da cadeira de rodas. Como assim? Cade minha liberdade para parir???

No trajeto do quarto, corredor, elevador, corredor, sala de parto, nessa tensão que me impossibilitava de parir, numa das últimas contrações só me restou orar, e orei muito por essa loucura da insanidade alheia q entrou em colapso por não olhar com atenção pra realidade. Procedimentos demais atrapalhando o fluindo do nascer, falta de observar e deixar acontecer. Quantas mulheres tem seus filhos de formas tão inusitadas, parindo aonde esta? Pq eu fui tratada assim e impedida de parir?

Enfim, qdo cheguei na sala de parto ate reencontrar uma posição confortável, colocaram umas coisas em mim e eu ouvia o coração dela na sala de parto, vieram mais algumas contrações e na penúltima antes dela nascer, o coração parou. Fiz toda a força do mundo que eu tinha pra ajudar ela a sair logo, mas ela nasceu sem vida porque teve uma parada respiratória (?). Sera?! Ainda a levaram para a UTI-neonatal para reanimação, enquanto isso, ainda ouvi uma porção de besteira do médico em comentários com a enfermeira como se eu não fosse um ser vivo que estava ali a escutar. E mais uma vez contra a minha vontade, esse médico estupido, enfiou a mão dentro de mim para fazer a extração da placenta. Que dor! Quanta dor! Não tem um remédio para ajudar a expulsar a placenta? Pq essa intervenção tão invasiva que deixou sequelas em meu útero até hoje, 2 anos depois?

Um tempo depois voltou a pediatra com a notícia de que ela não sobrevivera e ainda falando mais uma porção de insultos como se eu fosse a culpada pela morte dela. Sem limites a falta de noção da equipe médica!!! Essa é minha história, um parto que deveria ser um momento tão mágico virou um campo de batalha com um resultado tão triste. Como tantas outras mulheres, que mesmo saindo do hospital com seus filhos nos braços, passam por traumas dessa desmedida violência médica. É muito ego e pouco amor, por parte dos médicos que acham que são Deus!

E no meu caso, ainda me deram alta logo na segunda-feira, no dia seguinte ao parto, sem nem fazer exame algum, dias depois fui internada com infecção puerperal na Santa Casa de Ubatuba, quase morri. E ate hoje estou em tratamento dos traumas não só psico-emocionais, mas físicos em decorrência de procedimentos equivocados por parte daqueles que deveriam ser instrumentos em favor da vida, da virtude e de acolher no cuidado.

É decepcionante e frustante, e termino esse relato, ou esta lastima, dizendo que tenho imenso medo de voltar a engravidar e ir pro hospital. Oro a Deus que me dê a graça e a dadiva de um parto domiciliar humanizado com pessoas realmente comprometidas e preparadas para atender um parto sem intervenções abusivas e desnecessárias, como essa que vivi num hospital que antes eu confiava mas que  me trouxeram morte para minha

 filha linda. E uma dor incomensurável pra toda minha vida!

Depoimento enviado pela mãe Katea Barros

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