Pelo direito de chorar

Tudo muito planejado: depois de 5 anos de casados, decidimos saltar de olhos fechados e de mãos dadas na grande aventura de ser pais. O positivo. A alegria. Imensa alegria. Alegria tão grande que espantou para bem longe todos os medos e dúvidas sobre “é esse o momento certo?”. Não vamos contar para ninguém até a primeira ultra. Só conseguimos esperar o beta. Contamos para todo mundo, porque alegria tão grande não se consegue esconder. Na primeira ultra: talvez você tenha ovulação tardia, porque já daria para ver o saco gestacional com essa idade. Meu peito apertou pela primeira vez. Repetimos o beta. Tudo aumentando como tem que ser. 3 semanas da descoberta da gravidez: sangramento, medicação, repouso, medo, os sintomas da gestação indo embora. Junto com tudo isso e com aquela intuição de que nosso filho não veio para ficar muito tempo eu, incrivelmente, me sentia tranquila. Me lembro de não ter pedido para ele ficar porque a intuição que eu tinha – e na qual eu não queria acreditar – de que ele veio para um passeio breve era tão forte que tudo que eu conseguia repetir mental e verbalmente era “que seja a vontade de Deus, e não a nossa”. Nova ultra: ouvimos o coraçãozinho bater. Então tive forças para lutar contra aquela intuição tão forte que me dizia para deixar ele ir. Não, eu não quero que ele vá. Novo beta. Sem o crescimento esperado. Chorei um pouco e o que mas me doeu foi o choro que não chorei. Não chorei porque 3 semanas não tinham sido suficientes para me tornar tão boa mãe quanto boa filha, e boas filhas engolem o choro para tentar minimizar o sofrimento de sua mãe ao vê-la sofrer. Só chorei um pouco mais sob o efeito da anestesia geral associada ao procedimento de aspiração. Nova ultra confirmou que nosso filho já tinha partido mas foi necessário um procedimento hospitalar para preservar minha saúde física. Meu marido não chorou, nenhuma lágrima na minha frente. Nos meses seguintes em que digerimos nossa perda e sofrimento, consegui verbalizar que ele não chorar tinha me magoado muito. Então ele me confessou que claro que havia chorado, mas não na minha frente para evitar que eu sofresse mais. Eu, tentando não chorar para ser boa filha. Ele, tentando não chorar para ser bom marido. E demorou um pouco para a gente compreender que a maior dificuldade em vivenciar nossa perda foi nos negarmos o direito de sofrer. Porque eram só 3 semanas. Nem era motivo para tanto sofrimento assim. Éramos só parte da estatística de casais que perdem seus filhos nos primeiros meses da primeira gestação. Super comum. 5 das 10 mulheres da minha geração na minha família já passaram por isso. E elas foram boas filhas, não choraram muito para poupar suas mães. E seus esposos foram bons companheiros, não choraram para poupar suas esposas. Como assim? Metade das minhas primas já perdeu um filho e NÓS NÃO FALAMOS SOBRE ISSO! Nós lhe negamos o direito de chorar, o direito de viver a sua perda, o seu luto. Nós lhe negamos o direito de falar sobre isso! Isso tem que mudar, pelo menos para mim. Eu finalmente me dei o direito de chorar, longas horas, com meu esposo, com minha terapeuta, sozinha. Estou trabalhando para me dar o direito de chorar com minha mãe. Meu esposo finalmente se permitiu chorar ao meu lado. Somente porque nós nos demos o direito de chorar a perda do nosso filho, conseguimos resgatar a alegria que sentimos por tê-lo por perto, por 3 semanas que fossem”.

Depoimento enviado pela mãe Luana Ramalho

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