Para sempre Pedro

Depois de um diagnóstico de endometriose avançada, em que eu teria muita dificuldade de engravidar, veio a boa notícia: eu já estava grávida! Pedro, cujo nome já havíamos escolhido muito antes de sua vinda ser anunciada, estava por chegar. Que notícia maravilhosa foi aquela, depois de sair aos prantos do consultório, imaginando que eu jamais poderia ter o privilégio de ser mãe.
Embora Pedro fosse o primeiro filho e tudo estivesse normal, planejamos a cesárea. Eu tive muito medo de que algo desse errado no parto normal: que demorasse muito e faltasse ar a ele, que o cordão pudesse sufocá-lo, e outras milhares de coisas que passaram pela minha cabeça. Eu, com minha inocência de mãe de primeira viagem, não poderia jamais imaginar que o perigo real seria invisível; mal sabia que o que estaria por vir era muito pior: um vírus.
A gravidez foi perfeita. Sim, tive muitos enjoos, hipotensão, indisposição, coisas normais da gravidez. No mais, Pedro estava muito saudável, crescia e engordava dentro da normalidade. Um grande alívio, pois eu sempre sonhava que meu menino morria, que eu abortava; talvez fosse um presságio, mas pode ser que fosse somente medo e insegurança de mãe inexperiente.
Naquele 11 de janeiro de 2016, estávamos no hospital muito animados, cheios de esperança e curiosidade para saber como seria nosso Pedro, qual seria a cor de seus olhos, sentir o calor de seu corpo, poderíamos, enfim, ter o nosso menino nos braços. O destino, porém, não permitiu que eu pudesse ter esses sonhos concretizados: quatro horas após o parto meu menino se foi. Depois que ele nasceu, ainda na sala de cirurgia, só pude vê-lo rapidamente. Percebi que algo estava errado. Mas como, se em todos os exames estava tudo bem? Pedro chorou ao nascer, mas em seguida só houve silêncio. Ele estava com dificuldades para respirar. Foi levado à UTI. Intubado. Enquanto eu me recuperava, Pedro lutava para sobreviver longe de mim. Vi meu menino na UTI tentando ser reanimado; levaram-me para vê-lo antes de sua partida, que já era notória. Em pouco tempo, a notícia que ele havia partido; meu marido me deu a notícia, com a voz embargada e tão destruído por dentro como eu. Meu menino tornara-se um anjo. Fui vê-lo novamente, já sem vida. O tive pela primeira e última vez em meus braços.
Eu jamais saberei qual seria a cor de seus olhos nem poderei sentir o seu calor. Mas agradeço àqueles profissionais e ao meu marido que permitiram, com os olhos também cheios d’água, que eu tivesse meu filho nos braços, que pudesse dizer a ele o quanto o amava, e me despedir.
Pedro foi o bebê mais lindo que já vi. E era enorme: 3,625kg. Um vírus, porém, pouco conhecido e estudado, levou meu menino de mim. Fez com que ele desenvolvesse uma cardiomiopatia dilatada, ainda durante a gestação (bem no fim dela, provavelmente), e que não foi diagnosticada durante o pré-natal, resultando em um choque cardiogênico. Foi fatal.
Ser mãe de um anjo não é uma tarefa fácil. A montanha russa de sentimentos é algo difícil de lidar. Há dia em que tudo está bem, mas há dias em que a vontade de sair da cama não aparece, e tudo o que se deseja é voltar no tempo, na esperança de tentar fazer algo diferente, embora fosse em vão. Os momentos de calma e resignação se misturam com os de raiva, culpa e tristeza. E ainda um vazio assustador.
Ter o colo vazio dói. Ver sair do meu peito o leite que meu filho jamais irá tomar dói. Ter suas roupas entre minhas mãos dói. A culpa é tamanha que cheguei a pensar se eu deveria devolver os presentes que ele ganhou. Mas… Culpa de quê? E então me dou conta (mais uma vez) que a culpa não é minha, nem de ninguém, mas sim do acaso.
Sair do hospital sem meu menino foi devastador. Tudo o que desejo todos os dias é ter meu Pedro aqui comigo, sorrindo para mim, chorando, fazendo manha. As lembranças, tanto dos momentos terríveis que vivi no hospital, quanto de todo o maravilhoso preparativo que antecedeu sua chegada, o que planejei para minha vida, o que imaginava que faríamos juntos, isso tudo me faz achar que nada mais há sentido, que não é possível sobreviver sem ele. Mas então percebo e sinto o amor do meu marido, familiares e amigos, e vejo que tenho que seguir em frente, ainda que me custe e doa muito.
Depois de sua partida, soube de tantas histórias, de tantas mães que também perderam seus bebês, perdas gestacionais e neonatais, e algumas outras que perderam seus bebês depois de alguns meses, ou até anos de vida. Pessoas próximas, histórias que nunca haviam sido compartilhadas comigo. Agradeço a essas pessoas por compartilhar esses sentimentos, por expor suas dores para que eu não me sinta só, para que eu saiba que, embora trágico, não fui a única a sentir partir meu amor maior.
Eu jamais serei a mesma pessoa, e não somente por conta da dor da perda. Pedro me fez uma pessoa diferente desde que soube que o carregava em meu ventre: vejo coisas que não via antes, e tenho sentimentos que jamais senti. Tenho ainda muito mais amor pelos meus pais (toda mãe diz: “você só dará valor aos seus pais quando for mãe”. Embora clichê, é a verdade mais pura que já ouvi). Agradeço imensamente ao Pedro por me dar a oportunidade de ser mãe, de tê-lo sentido crescer dentro de mim. Cada movimento dele, tudo, absolutamente tudo foi maravilhoso. Agradeço por ele me ter feito mãe. Nunca imaginei que pudesse haver um sentimento tão grande de um ser humano a outro, e hoje eu sei o que significa o amor. Nada pode ser comparado a este sentimento. E é esse amor que me leva adiante, que apesar da tristeza sem fim, me faz viver.
Eu ainda sonho com meu menino, e isso é o mais perto que posso chegar dele agora. Mas é sempre tudo tão real que acalenta o meu coração, que me faz sentir realmente perto dele, embora seja por tão pouco tempo. Agora, os sonhos são cheios de alegria, de amor entre mãe e filho, de carinho. Ele sorri para mim. Nada mais de sonhos trágicos, como os de outrora.
Pedro, meu amor verdadeiro, estará sempre vivo no meu coração e em minha alma. Desde sempre até o infinito.
 Depoimento enviado pela mãe Claudia Silva
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3 comentários em “Para sempre Pedro

  1. Claudia, sou mae de anjo desde 14/12/15, eu sinto a tua dor, mas a sensação é essa mistura de sentimentos e que bom que voce tem uma familia maravilhosa assim como a minha,sem eles seria muito dificil recomeçar, mas estamos aqui saudáveis e ao lado de pessoas de amamos. Termos que crer em Deus na certeza de que dias melhores virão.

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  2. Boa tarde Cláudia muito lindo seu texto palavras de amor. Perdi meu bebê também a poucos dias, estava com apenas um mes de gestação mas ja sentia que era um menino meu anjo Nathan que embora um mês de gestação viverá para sempre no meu coração. Ainda choro, por dentro estou feriada mas Deus e minha família tem me dado forças.
    Obrigada por compartilhar

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